quarta-feira, 13 de junho de 2012

Orientação Nutricional (Espiritual)

Para que os filhos de Deus cresçam saudáveis.  

Tendo em vista a liberdade cristã ensinada no Novo Testamento, não pretendemos, com este artigo, estabelecer ou defender regras alimentares, senão apenas utilizar

o tema como ilustração para ensinamentos de cunho espiritua l (Rm.14.2-3). Em nossa alimentação diária, ingerimos uma série de substâncias. Algumas são imperceptíveis, escapam ao nosso conhecimento ou não recebem a devida atenção. Por exemplo, ao comermos feijão com arroz estamos, de fato, consumindo muito mais do que isso. Nosso prato contém também água, sal, gordura, alho e cebola (considerando um tempero mineiro habitual). Pode ser que também estejam ali elementos estranhos provenientes da lavoura ou mesmo da cozinha, tais como agrotóxicos, bactérias, etc.

O propósito nutricional vem, muitas vezes, acompanhado de outros efeitos nem sempre desejáveis ou benéficos. Alguns males manifestam-se de imediato. Se o alimento estiver estragado, sofreremos logo com a indigestão. Outros efeitos só aparecem depois de longo prazo.

Sal, gordura e açúcar são alguns dos mais queridos e saborosos vilões que frequentam nossas mesas. Os médicos e nutricionistas sempre nos alertam a respeito deles. Entretanto, continuamos consumindo-os (e não pretendemos reduzi-los). Que mal pode existir em uma pequena quantidade de sal? De imediato, nenhum, mas este é o problema.

O pouco (ou muito) que ingerimos todos os dias vai se acumulando em nosso organismo até que os efeitos maléficos surjam. A gordura causa obesidade e pode levar ao infarto. O sal pode produzir cálculos renais. O açúcar produz diabetes. O que foi saboroso tornou-se prejudicial. O excesso de tais substâncias poderia ter sido evitado, mas, depois de assimiladas, não podem ser facilmente retiradas do organismo, pois muito do que comemos passa a fazer parte do que somos.

Afinal, alimentamos mais por prazer do que por necessidade. Aumentamos a quantidade e reduzimos a qualidade. Priorizamos o sabor e a aparência do prato, subestimando seu conteúdo e efeitos orgânicos.

Mas, o que alimentação tem a ver com espiritualidade? Podemos delinear alguns paralelos pela analogia existente entre corpo, alma e espírito. Recebemos muitos alimentos espirituais que podem estar contaminados. Entretanto, não nos preocupamos com isso, enquanto não surgem sérios sintomas dos males adquiridos.

DELÍCIAS IMUNDAS

Não estamos sujeitos à lei de Moisés, mas existem nela muitas lições espirituais para nós. Por exemplo, Deus proibiu que os judeus comessem a carne de diversos animais classificados como imundos (Lv.11). Aquele povo não tinha conhecimento das contaminações invisíveis contidas naqueles “alimentos”. Portanto, deveria obedecer, mesmo sem compreender. Algum israelita poderia argumentar: “Senhor, mas este porquinho está limpo. Eu mesmo dei um banho nele. Agora posso comê-lo”? Se Deus disse que é imundo, não vamos discutir com ele. (Não se preocupe com a carne de porco, pois o cristão está autorizado a comer qualquer tipo de carne vendida no açougue – ICo.10.25). Entretanto, devemos nos preocupar com as imundícias do mundo que estamos lavando com nossas justificativas racionais para depois consumi-las sem restrições. Filmes, novelas, documentários, noticiários, shows, músicas, livros, revistas, jornais, desenhos animados, obras de arte, etc podem conter muito mais do que aquilo que gostaríamos. Existe uma mentalidade por trás de tudo isso, incluindo ideologias, propagandas diversas, inclusive com uso de mensagens subliminares. Não estou dizendo que vamos rejeitar sumariamente todas essas coisas, vivendo alienados. Se assim fosse, precisaríamos de muitos monastérios para a reclusão cristã. Este não é o ensinamento bíblico. O que precisamos, entretanto, é julgar todas as coisas (não as pessoas) e rejeitar aquilo que for abominável ou inaceitável, conforme os parâmetros da palavra de Deus.

A consciência, que também pode nos ajudar, funciona de modo semelhante ao olfato. Mesmo sem colocar um alimento na boca, é possível que já tenhamos um discernimento nasal a respeito das condições do mesmo. O que nos incomoda é, geralmente, inadequado ao consumo.

Existem ainda outros tipos de contaminação que vêm através de ensinamentos religiosos. Certa vez, o Mestre disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu” (João 6.51). Em outra ocasião, avisou: “Acautelai-vos do fermento dos fariseus” (Mt.16.6,11,12).

O pão utilizado nas ilustrações bíblicas é o ázimo, ou seja, sem fermento. Este era o pão que os judeus comiam durante a páscoa e colocavam em alguns tipos de ofertas no tabernáculo (Ex.12.8,15,17,18,20,39; Ex.13.6-7; Lv.2.4). Quando Jesus disse “este é o meu corpo”, tinha pão sem fermento em suas mãos (Lc.22.1,19). Fermento não é alimento, mas encontra-se misturado a ele, podendo, em alguns casos, indicar um estado de putrefação do mesmo. Afinal, fermentação é um dos sinônimos de decomposição. Seu efeito exterior pode ser o crescimento, mas isto não é necessariamente positivo. O fermento, mesmo em pequena quantidade, produz grande influência. Depois de colocado, torna-se difícil retirá-lo. Portanto, como disse Jesus, precisamos de toda cautela (Mt.16.6). “Não sabeis que um pouco de fermento leveda toda a massa? Expurgai o fermento velho, para que sejais massa nova, assim como sois sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, já foi sacrificado. Pelo que celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade” (ICo.5.6-8).

O nosso problema é julgar as coisas pela quantidade. Pensamos que um pouquinho de veneno não nos fará mal. São assim as influências pecaminosas recebidas de bom grado todos os dias até que seu efeito cumulativo comece a se manifestar.

“Não vos enganeis. As más conversações corrompem os bons costumes” (ICo.15.33). O que era o fermento dos fariseus? Sabemos que eles eram mestres e não padeiros. O referido fermento era sua doutrina, seus ensinamentos, cujas receitas incluíam a lei de Moisés contaminada por tradições religiosas (Mt.16.12). Assim alimentavam o povo.

Em todas as épocas, começando de Gênesis 3.1, a palavra de Deus, ao ser repetida, tem sofrido alterações e acréscimos desnecessários, mas que atendem aos interesses de alguns. Atualmente, os aditivos são muitos, com enfoques materialistas e místicos, na contramão do ensino bíblico. Nesse aspecto, se algo nos incomoda, não significa, a priori, que esteja errado, mas este já deve ser motivo suficiente para que busquemos os fundamentos bíblicos do ensino, caso existam (At.17.11). É evidente que ainda existem muitos que falam a palavra de Deus sem adulterá-la.

Precisamos examinar o que temos recebido como alimento em todo o tempo. Tudo o que vemos e ouvimos alimenta a nossa alma. Um pouquinho de veneno diluído naquilo que recebemos pode nos conduzir à morte.

“Pois o ouvido prova as palavras, como o paladar experimenta a comida” (Jó 34.3). Não temos como garantir a assepsia e pureza absoluta dos alimentos que comemos, mas isto não significa que vamos comer qualquer coisa, em qualquer lugar e de qualquer forma. Assim, precisamos cuidar também daquilo que recebemos em nossa alma ou espírito. A alma se alimenta das coisas deste mundo. O espírito se alimenta da palavra de Deus. Não sairemos do mundo (por enquanto) (ICo.5.10; João 17.15), mas devemos ser seletivos quanto ao que aceitamos dele (ICo.7.31). No que se refere ao espírito, precisamos ser cuidadosos com a composição e procedência da palavra ou doutrina que recebemos. Assim como nem todo aquele que diz “Senhor, Senhor” entrará no reino dos céus (Mt.7.21), também ocorre que nem todos os que utilizam a bíblia são servos de Deus.

Vamos comer qualquer alimento que encontrarmos no chão? Não comeremos. Assim também, não serão do nosso interesse os ensinamentos “bíblicos” vindos de fontes indignas de crédito (seitas diversas). O próprio Satanás usou a bíblia para tentar o Senhor Jesus (Mt.4.6).

Portanto, filhos de Deus, “comei em casa”. Cuidado com os pratos oferecidos em qualquer esquina. Acautelai-vos das alfarrobas deste mundo. Na casa do Pai há pão com fartura (Lc.15.16-17). Não participeis da mesa dos demônios (ICo.10.21). Controlai o apetite da carne e não vos lembreis das comidas do Egito (Nm.11.5). Quem tem ouvidos para ouvir ouça (Mt.13.9).
O MELHOR ALIMENTO

Quantos ensinamentos malignos já recebemos? Não temos como saber a exata extensão dos males que se encontram profundamente arraigados em nossas almas. Sabemos, porém, que Deus providenciou o antídoto. “Achando-se as tuas palavras, logo as comi; e as tuas palavras eram para mim o gozo e alegria do meu coração” (Jr.15.16). Recebamos diariamente a santa palavra de Deus, pois ela é poderosa para renovar a nossa mente mediante a operação do Espírito Santo. Por sua falta, muitos estão fracos e com a saúde espiritual comprometida. Devemos ler a bíblia, estudá-la, meditando sempre acerca dos seus divinos ensinamentos. Assim, nossa mentalidade será transformada e ninguém poderá arrancar dos nossos corações a semente divina. Seus efeitos serão gloriosos, produzindo em nós o fruto do Espírito e uma vida agradável ao Pai celestial. Melhor do que conhecer a palavra de Deus é praticá-la, seguindo o exemplo do nosso Senhor Jesus Cristo. “Entrementes, os seus discípulos lhe rogavam, dizendo: Rabi, come. Ele, porém, respondeu: Uma comida tenho para comer que vós não conheceis. Então os discípulos diziam uns aos outros: Acaso alguém lhe trouxe de comer? Disse-lhes Jesus: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e completar a sua obra” (João 4.31-34).

Anísio Renato de Andrade – Bacharel em Teologia.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O retorno à Terra Santa

Na segunda metade do século XIX, desenvolveu-se entre os judeus da Europa a idéia da reconquista do Sião. A emigração para Jerusalém ganhou força bem antes da criação de um verdadeiro Estado

por Remi Kauffer
“A população israelita da palestina conta com cerca de 13 mil almas. Aproximadamente 90% delas vivem em Jerusalém, Hebron, Safed e Tiberias”. Charles Netter, um dos pioneiros da implantação judaica na Palestina, escreveu esaas palavras em um relatório de 11 de janeiro de 1869, dirigido à Aliança Israelita Universal, fundada nove anos antes em seu apartamento em Paris.
Na época, a população das três regiões que compunham a Palestina, ainda sob o domínio do Império Otomano, era estimada pelas autoridades turcas em 350 mil pessoas. Essa Palestina de então compreendia o atual território de Israel, a Jordânia, a Cisjordânia e a faixa de Gaza. Os judeus representavam apenas uma pequena minoria na região, em que viviam muçulmanos, claramente majoritários, mas também cristãos ortodoxos, católicos, maronitas, armênios, protestantes e coptas.
Aos mustarabes, os judeus que jamais emigraram daquela terra, vieram se juntar alguns milhares de sefaraditas, israelitas que fugiram da Espanha da Inquisição a partir de 1492. E ainda os asquenazis da Europa central e oriental e os magrebis, originários da África do Norte. Daquele total de 350 mil habitantes da Palestina, havia menos de 15 mil hebreus.
Nesse tempo, parecia uma utopia a idéia de retorno à Terra Santa de uma grande população israelita, para lá edificar um Estado. O projeto havia sido concebido por Theodor Herzl – jornalista e dramaturgo judeu, nascido em Budapeste em 1860 – e oficializado no congresso de fundação da organização sionista em Bale, em 1897.

Até sua morte, em 1904, Herzl estimava que a criação do Estado judeu na Palestina seria uma unanimidade. Aos que se inquietavam com a hostilidade dos árabes, ele respondia: “Por que se levantariam contra nós se estamos trazendo o progresso para eles?”

Não parece ter passado por sua cabeça a idéia de que o sionismo político, um movimento nacional do povo judeu, poderia provocar, como reação, um idêntico movimento do povo árabe na Palestina.

Quem eram e de onde vinham esses imigrantes? Primeiramente, eram os filhos da perseguição. Na Rússia, na Romênia, na Polônia, o anti-semitismo se manifestava por toda parte. Ora, cinco milhões de israelitas viviam no império dos czares. Vários deles sonhavam escapar de uma vida sem esperanças – tendo como opção, também, os Estados Unidos.

Desde 1870 os judeus do Leste da Europa começaram a voltar à Palestina. Criado em 6 de fevereiro de 1882 por um grupo de estudantes de Kharkov prontos para partir à Terra Santa, um primeiro movimento tratou de coordenar seus deslocamentos. Era o #bilu#, fruto de um anagrama feito a partir das iniciais de um versículo do profeta Isaías.

Em 1888, as autoridades otomanas decidiram interromper a entrada de imigrantes na região. Mas os judeus europeus conseguiram contornar o decreto e se estabeleceram na Terra Santa. Foi a primeira #alya# (escalada), termo que faz referência à colina de Sião, em Jerusalém.

A segunda alya (1904-1906) mobilizou judeus russos. Essa onda levou para a Palestina grupos de judeus com posições de esquerda claramente afirmadas, freqüentemente marxistas.


Chaim Weizman assume o cargo de primeiro presidente eleito do Estado de Israel, em 1949
Em 1904, a população judia da Terra Santa ultrapassava 65 mil pessoas. Em 1914, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, já era de 85 mil habitantes. Tel Aviv foi fundada em 1909, em dunas desérticas, por cerca de 60 famílias de pioneiros.

Mesmo assim, em 1914, os judeus constituíam no máximo 12% da população palestina. A situação mudou bruscamente em 2 de novembro de 1917, quando Arthur Balfour, ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, escreveu a Lionel Walter Rothschild, presidente da Federação Sionista da Grã-Bretanha. Dizia na carta que “o governo de Sua Majestade pondera favoravelmente sobre o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu”. O nó da questão era que o mesmo governo já prometera o mesmo para os árabes, que combateram o domínio turco na região.

Os árabes não gostaram nada disso. Por outro lado, a colonização agrícola por judeus se intensificava na Palestina. Resultado: os conflitos se inflamaram e conduziram as duas partes a formarem milícias armadas.

Durante a década de 1920, a importância numérica do #Yishuv# (era assim que a comunidade judia da Palestina passou a se auto-designar na época) cresceu. Segundo os ingleses, que administravam a Palestina por decisão da Liga das Nações (o chamado mandato britânico), entraram 7.844 imigrantes em 1922; 7.421 em 1923; 12.856 em 1924; 33.801 em 1925; 13.080 em 1926; e 2.713 em 1927. De acordo com o recenseamento de outubro de 1922, os judeus da Palestina somavam 83.794, em uma população total de 757.182 habitantes.

Em agosto de 1929, judeus e árabes se enfrentaram violentamente em uma disputa pelo acesso ao Muro das Lamentações. Uma semana depois, 133 judeus e 116 árabes haviam morrido. Isso não impediu a continuidade da imigração israelita. De 4 a 5 mil pessoas entre 1929 e 1931, pulou para 9.500 em 1932.


Theodor Herlz, jornalista e dramaturgo húngaro que fundou o movimento sionista no século XIX
Em 1933, com a dupla esperança de salvar os judeus da Alemanha e de permitir sua emigração para a Palestina, a Agência Judaica concluiu o acordo Haavara (transferência) com Hitler. O acerto previa a partida de judeus alemães e sua instalação na Terra Santa, em troca de um boicote econômico mais discreto à Alemanha nazista por parte das comunidades judaicas e do pagamento de somas exorbitantes.

O fluxo de judeus vindos do Leste Europeu continuava. Durante o ano de 1933, a imigração atingiu 30 mil pessoas. A cifra subiu para 42 mil no ano seguinte e para 62 mil em 1935, ano do apogeu. Nesse ritmo, não surpreende que os 460 mil judeus que residiam na Palestina em 1939 representassem quase um terço da população total, estimada em pouco mais de um milhão de pessoas.

Entre 1936 e 1939, um Alto Comitê árabe comandou uma revolta sem precedentes contra os imigrantes e os britânicos. Um conflito cada vez mais violento, no qual os homens da Haganá, o exército secreto judeu, e do Irgun, um grupo terrorista clandestino, enfrentaram os árabes, menos organizados, mas igualmente decididos: terrorismo, contra-terrorismo, sabotagens, execuções sumárias e ataques contra vilarejos.

No meio dessa tensão, a Grã-Bretanha atuou de modo conciliador. Fez concessões aos árabes em 1936, com a diminuição oficial da cota de imigração, que caiu de 4.500 a 1.800 pessoas por ano. E também aos judeus: a comissão presidida pelo lorde William Robert Peel se comprometeu com a divisão da Palestina em dois Estados.

Por esse tempo, a perspectiva era de redução da porção israelita na população palestina. A taxa de natalidade dos árabes (50 por mil habitantes) era claramente superior à dos judeus (32 por mil habitantes). A tendência à diminuição percentual se mantinha mesmo se levado em conta que a taxa de mortalidade era de 12 por mil habitantes para judeus, e de 35 por mil habitantes para árabes.

Em junho de 1945, a Agência Judaica, que havia angariado importantes apoios nos Estados Unidos, pediu a entrada imediata de 100 mil imigrantes na Palestina. O governo britânico cedeu, impondo o limite de 1.500 por mês.

David Ben Gurion, que mais tarde fundaria o Estado de Israel, e a direção do Yishuv decidiram retomar a luta armada contra os ingleses, suspensa durante a Segunda Guerra. E recolocaram em prática uma forma de luta que havia sido inaugurada em pequena escala no fim dos anos 1930: a imigração ilegal.

Com comitês implantados na Itália, na Romênia e na França, o grupo de Gurion fretou navios destinados a encaminhar os clandestinos à Terra Santa. Apenas 2.500 deles, de um total de 70 mil, conseguiram desembarcar na Palestina.

Mas o objetivo da política de imigração ilegal era, além de prático, psicológico e midiático. Criou-se no seio das comunidades judaicas do mundo o mito dos sobreviventes do Holocausto acolhidos por jovens sionistas cheios de vigor, que os carregavam no colo no desembarque na Terra Prometida. Entre os não judeus, ganhou força a imagem de passageiros mártires, cuja única esperança era a criação rápida de um estado judeu na Palestina. Isso os ajudou a marcar pontos na opinião pública internacional, principalmente a americana.


Manifestação dos árabes de Jerusalém em 1929 contra a presença judaica na Palestina
Como o líder histórico dos árabes e mufti de Jerusalém, o chefe muçulmano Amin al-Husseini, foi desconsiderado internacionalmente por sua política de colaboração com a Alemanha, os palestinos não dispunham de nenhuma organização política ou militar capaz de defender sua causa com eficácia. Eles passaram a depender da Liga Árabe (formada por Egito, Iraque, Líbano, Arábia Saudita, Síria, Transjordânia, Iêmen e mais um representante palestino sem poderes), criada no Cairo em 22 de março de 1945.

Assim, a Organização das Nações Unidas, que sucedera a Liga das Nações, propôs um plano de partilha em que o futuro Estado hebreu, com 500 mil judeus e 400 mil árabes, cobriria 5% do território palestino; 100 mil outros hebreus viveriam em Jerusalém sob estatuto internacional. Para aprovar o texto, era necessária uma maioria de dois terços. Isso aconteceu no dia 29 de novembro de 1947. Em 14 de maio de 1948, David Ben Gurion, proclamou o nascimento do Estado de Israel. Uma página fora virada e um longo drama prosseguiria. 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

As pistas para uma grande história

Andrew Stanton, roteirista de Procurando Nemo e Wall-e, entre outros filmes, fala aqui do que funciona numa história. As dicas que ele dá para despertar a atenção valem tanto para filmes quanto para a literatura e são uma excelente apresentação no TED para escitores.
andrew_stanton

Mulher a primeira a sofrer a influência da propriedade privada, se tornando assim a primeira escrava da humanidade

 
A mulher contemporânea tem grande influência na sociedade, conquistou seu lugar ao sol, através de muita dedicação,trabalho e abdicação, hoje em dia além da mulher ser vista pelo mercado de trabalho como uma mão de obra competente e determinada, a sua grande maioria quando chega em casa se depara com outra jornada de trabalho desta vez se despojando da profissional, e sendo dona de casa, mãe e esposa, somente o fato de conseguir conciliar estas habilidades e que estão garantindo o devido respeito dá sociedade.
Mas a algumas décadas atras as coisas eram bem diferentes a mulher era marginalizada é colocada na condição de coadjuvante do homem e justamente por isso era considerada e tratada como uma classe inferior cheia de obrigações e deveres e sem quase nenhum direito, mas isso nem sempre foi assim, no inicio do surgimento das primeiras sociedades, segundo Friedrich Engels na Origem da família, da propriedade privada e o estado a sociedade se dividiam em gens e essas primeiramente eram matriarcal, como o próprio nome diz quem governava era a mulher. Nesta época tudo que era produzido pelas gens era de todos, não havia bem comum, o máximo que poderia acontecer era o escambo, ou seja a troca de uma mercadoria entre gens, mas não havia dentro das gens alguém que possuísse algo só seu.
Com o tempo o homem começou a perceber que ele podia acumular bens, ou seja ter propriedade privada, e isso foi determinante para que ele não quisesse mais dividir seus bens depois da sua morte com aqueles que não eram efetivamente seus herdeiros, então a partir deste momento se formar as primeiras famílias patriarcais lembrando que a palavra família deriva do latim “famulus”( servo, escravo, criado doméstico), isto nos leva a entender é que a criação da família foi para garantir ao homem a servidão de uma mulher a legitimando assim seus herdeiros.
Concluo assim que a partir da formação da propriedade privada, foi instituída a família e também foi criada a primeira forma de escravidão do homem (proprietário) sobre a mulher (serva).
por Janaína de Paula

Aquele que não ama a revolução deve ao menos temê-la

O Dia que durou 21 anos
Extraordinário Documentário que revela minuciosamente a participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964 que durou até 1985 e instaurou a ditadura no Brasil.
Pela primeira vez, documentos do arquivo norte-americano, classificados durante 46 anos como “Top Secret” são expostos ao público.
Textos de telegramas, áudio de conversas telefônicas, depoimentos contundentes e imagens inéditas fazem parte desse documentário, narrado pelo jornalista Flávio Tavares.


Responsável pela publicação: David Quevedo

por: seguidores de ramon

sábado, 9 de junho de 2012

Um retrato afetivo de Marighella

Documentário sobre Carlos Marighella procura resgatar as várias facetas do homem que morreu lutando para que o país incorporasse, como cidadãos de fato, o povo pobre e desassistido

Por Amilton Pinheiro | Fotos Rafael Cusato e Divulgação

TELEVISÃO
TROFÉU DO REGIME ASSASSINO
Esse material valiosíssimo, que não entrou na edição final do documentário sobre Marighella, estará nos extras quando o filme for lançado em DVD. Quem sabe possa servir, de alguma forma, para a Comissão da Verdade do Governo Federal. Os depoimentos eram tão pesados que toda a equipe do filme ia às lágrimas, revela a diretora. "A minha equipe, na sua maioria, era formada de jovens que não sabiam o que tinha sido os anos de ditadura no Brasil e as torturas nos seus porões. Teve dia que todos, inclusive eu, íamos almoçar e ninguém conseguia tocar na comida.
Voltávamos para as filmagens e chorávamos todos em comunhão." A decisão da diretora em não colocar esses depoimentos no filme é compreensível, pois ela queria retratar o homem por detrás do mito, que entrou para história como um facínora pelo regime militar, e que nunca foi devidamente revelado.
Depois de assassianado por 30 policiais do Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS) de São Paulo, chefiado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, numa emboscada por volta das 8 horas da noite do dia 4 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, em São Paulo, o guerrilheiro Marighella foi usado durante anos como espécie de troféu pelo regime militar. Os policiais que o mataram, juntamente com Fleury, tiraram vários fotos dele crivado de balas dentro de um fusca. Essas imagens foram usadas à exaustão durante muito tempo nos jornais, revistas e nos noticiários de televisão. A esposa de Marighella, Clara Charf, lembra com muita emoção daquele dia. "Estávamos em casa esperando por ele, quando ouvimos pelo rádio que Marighella tinha sido morto numa emboscada na Alameda Casa Branca. Eu me levantei e fui chorar num quarto. Como um homem tão bom, que passou toda sua vida lutando por um Brasil mais justo para o seu povo menos favorecido, pôde ser morto de uma forma tão violenta? Lembro do seu sorriso afável que sempre me alertava para que eu tivesse cuidado quando fosse às ruas. Ele dizia: `Clara, não fique rindo à toa, pois seu sorriso é muito expressivo e alguém pode desconfiar de você`. Vivíamos na clandestinidade, e ele sempre se preocupava comigo. Não somente comigo, mas com todas as pessoas que viviam ao seu lado."



Clara Charf, quando conheceu Marighella, já era militante: lutou contra a bomba atômica, participou de várias passeatas em defesa da paz e lutou arduamente contra o Golpe Militar de 1964. Hoje, aos 87 anos, é uma mulher ainda incansável na defesa de causas humanitárias. Em 2005, coordenou o livro Brasileiras - Guerreiras da paz, Projeto 1000 Mulheres, que foi lançado pela editora Contexto. Ela recebeu a reportagem da RAÇA BRASIL em seu apartamento, que fica numa rua tranquila do Bom Retiro, em São Paulo. A conversa só não foi totalmente agradável por causa das lembranças tristes do marido morto. Em diversas ocasiões, Clara chorou ao lembrar de Marighella, principalmente do dia de sua morte, 4 de novembro de 1969. "Tivemos que conviver com os noticiários eufóricos, celebrando a morte de Marighella. As manchetes de jornais e revistas e o noticiário estamparam durante semanas as fotos do meu marido morto dentro de um carro, todo ensanguentado. Foi difícil conviver com tudo aquilo e nada poder falar. Lembro de ter ficado desnorteada, sem chão durante semanas. Ele representava muito não só como meu marido, mas como um homem de convicções e de visão do país." Com a morte do marido, Clara foi viver no exílio em Cuba (passou 10 anos por lá, só voltando depois da Anistia de 1979), com medo do que poderia acontecer com sua vida. "Quando vivia na clandestinidade com Marighella, apesar do medo e das constantes ameaças, conseguia suportar tudo aquilo; ele me dava segurança, e eu admirava muito as causas pelas quais lutávamos." De volta ao Brasil, teve de continuar em silêncio, pois mesmo depois da Anistia, o nome de Mariguela continuava a ser um assunto carregado de significados negativos. "TIVEMOS QUE CONVIVER COM OS NOTICIÁRIOS EUFÓRICOS, CELEBRANDO A MORTE DE MARIGHELLA. AS MANCHETES DE JORNAIS E REVISTAS E O NOTICIÁRIO ESTAMPARAM DURANTE SEMANAS AS FOTOS DO MEU MARIDO MORTO DENTRO DE UM CARRO, TODO ENSANGUENTADO. FOI DIFÍCIL CONVIVER COM TUDO AQUILO E NADA PODER FALAR" Clara Charf se acostumou a viver na clandestinidade e a sofrer todo o tipo de perseguição, inclusive psicológica, junto com o homem que escolheu para casar (precisou fugir para poder se casar com Marighella, pois sua família judia não aceitava aquela união com um homem negro, comunista e ateu). Diante de tudo que passou, Clara conservou o otimismo em relação ao país. Inteligente, lúcida e com um belo sorriso afável, ela nos ensina que vale a pena ainda acreditar, mesmo que não tenhamos mais fé. O depoimento do ex-presidente Lula para o filme de Isa Grispum, que não entrou na edição final do documentário, sintetiza um pouco essa mulher extraordinária. "Se a Clara não tive nascido, ela tinha que ter sido criada."

A filha de Betty e Malcolm X


Herdeira. "Ser filha de Malcom X é fácil. Difícil foi ser filha de Betty, pobre, com outras seis irmãs". Foto: Felipe Milanez
Ser filha de Malcolm X é fácil. Difícil foi ser filha de Betty Shabazz, com outras seis irmãs, pobres, no Harlem.” Todas as vezes que encontro Malak Shabazz ela sempre prefere falar da mãe quando pergunto sobre seu pai. Nessa família de ativistas afro-americanos, não há um sem o outro. Malak é a caçula, e não chegou a conhecer Malcolm, morto quando Betty estava grávida. E como os pais, ela segue na luta por direitos humanos e justiça social. Nos últimos tempos, seu foco tem sido o feminismo. “Igualdade”, ela diz. “Equal rights.”
Na sede da National Action Network: House of Justice, o clima é triste, mas não como o do velório no dia anterior, de Gil Noble, um famoso âncora negro de tevê. Malak, metida em uma bata africana, toma o microfone: “Brother Gil era um amigo da família. Eu sei quem ia lá em casa. Muita gente diz que é amigo. Depois do filme Malcom X, de repente todo mundo era amigo. Mas no clima de ódio daquele tempo, ele sempre estava lá. E quando teve espaço na tevê, minha mãe cobrou dele para representar e defender o povo negro, o povo da diáspora africana. E ele fez. Gil também nos apoiou na luta para preservar o local onde meu pai foi assassinado, e hoje se chama The Malcolm X and Dra. Betty Shabazz Memorial and Educational Center.”
Leia também:
Rio de Janeiro: Risco nas favelas
Cinema: A vida bandida
Calçada da Memória: Dupla do barulho

O centro fica a poucas quadras da House of Justice. No início do ano, uma bela exposição lembrava as “freedom sisters”, mulheres negras que lutaram pelos direitos civis. Agora em maio está em cartaz The Long Walk to Freedom, a longa marcha pela liberdade. Também com fotografias, gráficos e biografia de ícones do movimento pelos direitos civis.
O memorial ocupa o antigo Audubon Ballroom, local onde Malcolm X, aos 39 anos, foi assassinado na noite de 21 de fevereiro de 1965 por três integrantes da Nação do Islã. O edifício pertence à Columbia University e foi cedido em 2005 para uso da família por 99 anos, após intensa mobilização no fim dos anos 1980, quando a universidade quase derrubou o prédio.
A reforma foi bancada pela cidade de Nova York e pelo banco Chase e planejada pelo também conhecido arquiteto negro Max Bond, que estudou em Columbia. “Ainda faltam 97 anos, temos muita coisa para fazer aqui”, diz Malak, confiante. A exposição Freedom Sisters foi financiada pela Fundação Ford. Além do centro, a família dirige a Malcolm X Foundation, o X Legacy Inc., e uma série de planos de bolsas para estudantes negros, especialmente em medicina, em Columbia.
Há um belo salão de danças no segundo andar do memorial. Piso de madeira, telhado branco e um imponente mural. Malak emociona-se. Ela para no exato local do crime, próximo à janela, onde ficava o palco em que seu pai discursava. Na parede oposta, um grande mural resume a vida de Malcolm X. “Foi bem aqui que mataram ele. A minha mãe estava ali do lado, eu e minha irmã na barriga dela.” Qubilah Shabazz, segunda das irmãs, foi testemunha do crime (e acabaria presa em 1995 acusada- de encomendar a morte de Louis Farrakhan, que teria incentivado o assassinato de seu pai).

Malak é uma celebridade no Harlem e mantém viva a memória dos pais
“As pessoas falam de meu pai, mas esquecem de Betty. Ela criou seis filhas sozinha. Estudou, fez doutorado. Organizou a luta pelos direitos, foi intensa ativista. E ela nos protegeu. Só nos demos conta do ódio que havia lá fora quando fomos à universidade.”
Malak é uma celebridade no Harlem. Nas ruas, apertos de mão, acenos. Descendente de italianos, pareço deslocado – o único não afrodescendente na reunião da House of Justice. Mas a identidade brasileira abre portas. “Eu tenho lido muito sobre os quilombos, que luta incrível os nossos irmãos travam no Brasil”, afirma Gary, um radialista de voz forte durante a cerimônia. “Meu pai queria unir os povos africanos. Na África, na América, todos os negros da diáspora imposta pela escravidão”, afirma a ativista. “Minha mãe adorava a Bahia. Foi muitas vezes para lá. Acho até que ela tinha algum namorado”, sorri.
A adoção do islamismo, talvez uma forma de protesto, é sustentada pelo que Malak diz ser sua fé. Cristãos e muçulmanos eram opostos na luta nos direitos civis, inclusive dentro do movimento negro. Ela lembra a histórica divergência entre seu pai e Martin Luther King. “Se batessem nele, Luther King iria oferecer a outra face. Meu pai partiria para a briga. Ele nunca aceitou a submissão.” Suas palavras, diz ela, fortaleciam a autoestima do afro-americano para lutar por seus direitos. “Hoje estamos vivendo um retrocesso.” A militante teme pelas eleições presidenciais deste ano. “Não é fácil (re)eleger um negro neste país racista.”
A conversa logo entra no tema das cotas raciais, as ações afirmativas. “Temos de ter acesso a direitos. Vivemos como exilados. Viemos embaixo de um navio, no porão. Contra a nossa vontade.” Ela fala em “direito para vivermos e justiça social”, o “direito de existir”. Contra os argumentos popularmente apresentados no Brasil, entre eles o de que as cotas pioram o nível da educação, é direta: “Isso é ridículo. Quem acredita nisso?”
A música está em cada canto do Harlem. Malak diz não gostar de rap (“É violência, degrada as mulheres”), mas mostra simpatia pelo hip-hop (“É um modo de vida. Como o jazz, usa a arte para abrir a mente e a alma”).
“A música é uma arma”, diz Gary, parceiro de Steve Wonder no famoso disco Songs In The Key of Life, enquanto conduz a cerimônia na House of Justice. “Com a música ninguém pode nos impedir de criar, de falar. E hoje, com a web, estamos livres das gravadoras. Ninguém pode nos impedir de distribuir”, incentiva ao microfone. “Uma revolução está sendo criada pela música. Temos de usar o poder da música, que é a mais poderosa forma de comunicação.” Malak aprova. A resistência e a esperança ela herdou, em igual medida, de Malcolm e Betty.

fonte: Carta Capital

terça-feira, 5 de junho de 2012

Deus é Pop - matérias da revista Época

Como os jovens brasileiros – que estão entre os mais religiosos do mundo – expressam sua fé em novos ritos, novas igrejas e até na internet

Nelito Fernandes

A FÉ TATUADA
Fernanda Mariana, de 19 anos, da Bola de Neve. Ela diz que a igreja não quer mudar sua aparência
Com mais de 20 tatuagens estampadas no corpo, dois piercings no nariz e um alargador de orelha, a paulistana Fernanda Soares Mariana, de 19 anos, parece estar montada para um show de rock. Apenas a Bíblia que ela carrega nos braços sugere outro destino. E Fernanda, a despeito do visual, está pronta mesmo é para encontrar Jesus. “A igreja não pode julgar. Ela tem de estar lá para transformar sua vida, e não sua aparência”, afirma. A igreja que Fernanda escolheu não a julga pelo figurino. Numa noite de domingo, no templo da Bola de Neve Church do Rio de Janeiro, o que se vê são fiéis vestindo bermudas e camisetas com estampas de surfe. Boa parte exibe tatuagens como as de Fernanda. No altar, uma banda toca música gospel, enquanto a vocalista grita o refrão “Jesus é meu Senhor, sem Ele nada sou”. Na plateia, cerca de 300 pessoas acompanham o show em catarse, balançando fervorosamente ao som da música. A diaconisa Julia Braz, de 18 anos, sobe ao palco de cabelo escovado e roupa fashion. Põe a Bíblia sobre uma prancha de surfe no púlpito e anuncia: “O evangelismo tá bombando!”. Amém.

Tebas o escravo arquiteto do século 18

O talento de construtor transformou o escravo Tebas em figura lendária; mas até hoje continua pouco conhecido
Por: Wagner Ribeiro

Montagens: Fabiana Neves
EM 1755, A REFORMA DA CATEDRAL FICOU PRONTA, COM A TORRE - OS PROBLEMAS TÉCNICOS FORAM RESOLVIDOS PELO, ENTÃO, ESCRAVO
Joaquim Pinto de Oliveira, o escravo Tebas, foi responsável pela construção de obras importantes durante o século 18, como a torre da primeira Catedral da Sé, Chafariz da Misericórdia, talhou a pedra de fundação do Mosteiro São Bento, ergueu o frontispício da Igreja da Ordem Terceira Carmo, este tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), entre outras obras. Contudo, até hoje tão pouco se sabia a respeito da vida dele, que o historiador Nuto Sant'Anna chegou a levantar a hipótese de que ele fosse branco e o habilidoso escravo Tebas não passasse de lenda. Mas, Leituras da História encontrou documentos inéditos que comprovam a existência desse escravo arquiteto.
Para Benedito Lima de Toledo, professor emérito da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, a notoriedade conquistada por Tebas está relacionada ao período em que ele viveu. No início do século 18, São Paulo era uma pequena cidade episcopal sem recursos financeiros, cujas escassas obras arquitônicas estavam em ruínas. Mas esse quadro começou a mudar a partir de 1840. Algumas das antigas igrejas e conventos foram totalmente reconstruídas e outras passaram por grandes reformas - tanto internas quanto externas. "Depois de primeira metade do século 18, tudo mudou e esse se tornou o tempo em que mais se construiu durante todo o período colonial", comenta Toledo. "E Tebas foi um escravo que conseguiu representar a forte religiosidade dessa época por meio de suas construções", acrescenta.
A outra face da notoriedade de Tebas são as histórias repassadas oralmente pelo povo, com o acréscimo de elementos dramáticos, e que acabaram se tornando falsas verdades. Vários textos encontrados tanto na Internet quanto em livros, relatam que, em 1750, Tebas pertencia ao padre responsável pela primeira Catedral da Sé. Um dia ele perguntou ao senhor por que não tinha torre na igreja. O eclesiástico respondeu não haver engenheiro capaz de construí-la, Tebas disse que executaria a obra sob as condições de receber a carta alforria e que o primeiro casamento realizado na catedral fosse o dele.
Montagens: Fabiana Neves
CIDADE DE SÃO PAULO VISTA DA VÁRZEA DO CARMO, EM 1809

IBERDADE E CASAMENTO
As dificuldades na construção da torre de fato existiram. Monsenhor Sylvio de Moraes Mattos cita na página 60 do livro A Igreja Matriz da Vila São Paulo e a Velha Sé, não publicado, mas disponível para pesquisa no arquivo da Cúria Metropolitana, que o primeiro bispo dom Bernardo pedira ao rei dom José (1750-1777) 10 mil réis para construir a torre, mas os engenheiros haviam esbarrado em problemas técnicos, os quais foram posteriormente resolvidos pelo, então, escravo.

Em 1755, a reforma da catedral ficou pronta, com torre.
Mas, de acordo com a certidão de casamento encontrada por nossa reportagem, o já alforriado Joaquim Pinto de Oliveira se causou com Natária de Souza, em 10 de junho de 1762, sob o sacramento de padre Antônio de Toledo Lara, bem depois da construção da torre. Na mesma certidão, consta que Tebas foi escravo de Bento de Oliveira Lima, um português reconhecido como grande mestre pedreiro, ou seja, ele nunca pertencera a qualquer padre.
Outro mito diz respeito ao verbete "Tebas", registrado no dicionário Houaiss, que significa aquele que é hábil, importante ou destemido. Mas, para Nuto Sant'Anna, a alcunha é alusiva à habilidade, à agudeza, à perspicácia do engenhoso tebano que decifrou o enigma da esfinge. Nesse caso, não foi o Tebas que deu significado ao termo, mas o Édipo de Tebas, o qual deu também significado ao apelido do escravo. A observação de Sant'Anna parece ser a que mais se aproxima da verdade. Pois, só em 1791, já mestre pedreiro renomado, é que Tebas assume o vulgo e passa a assinar Joaquim Pinto de Oliveira Tebas, aquele que construiu de tudo na São Paulo do século 18.
Montagens: Fabiana Neves
RUA DO CARMO (1862)
Montagens: Fabiana Neves
1765: A EMPREITADA FOI A CONSTRUÇÃO DA TORRE DO RECOLHIMENTO DE SANTA TERESA, ERGUIDA A PARTIR DA TÉCNICA DE TAIPA DE PILÃO, PREDOMINANTE NO SÉCULO 18
FORMAÇÃO E OBRAS
Tebas nasceu em 1721, em Santos, litoral sul de São Paulo. Ainda nessa cidade era escravo do português Bento de Oliveira Lima, célebre mestre de obras. Foi com esse português que o notável escravo teve os primeiros ensinamentos no ofício de pedreiro. Lima, pelo que tudo indica, teve notícias de que em São Paulo as construções estavam a todo vapor e decidiu migrar em busca de melhores oportunidades de trabalho.
O português Bento de Oliveira Lima, célebre
mestre de obras, foi quem deu os primeiros
ensinamentos no ofício de pedreiro
ao notável escravo
Não se sabe exatamente quando eles chegaram a São Paulo. Mas a ascensão de Tebas como construtor teve início nessa cidade, na década de 1750. Foi durante esse período que ele construiu a torre da primeira Catedral da Sé. "O que contribuiu para a fama de Tebas foi a capacidade de trabalhar em construções altas", relata Carlos Lemos, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, arquiteto há 62 anos. "Só ele construía as torres das igrejas na época", afirma Lemos. Depois da construção da torre, executou ainda a reforma do frontispício da catedral em 1760. A nova fachada passou a exibir um frontão barroco com curvas e antecurvas, substituindo o frontão triangular original, e a porta de entrada com arco batido tomou o lugar da antiga verga reta. Para trabalhar nessas obras, Tebas recebia o salário de 640 réis por dia, uma vez e meia o salário de um construtor branco.
Em 1765, a empreitada foi a construção da torre do Recolhimento de Santa Teresa, erguida a partir da técnica de taipa de pilão, predominante no século 18, e coberta por telhas de barro. No ano seguinte, 1766, Tebas se encarregou da construção do frontispício da Igreja da Ordem Terceira do Carmo, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). A importância histórica e artística das obras desse negro talentoso, explica o professor Benedito Lima de Toledo, está no fato de que praticamente não existiam engenheiros e, menos ainda, erudição nas construções. "Tebas partia da experiência de mestre-pedreiro, captava a religiosidade da época e dava sua marca pessoal às obras", relata. "Essa expressão da religiosidade é que o transformou em arquiteto e suas obras em arte", conclui Toledo.
Montagens: Fabiana Neves Montagens: Fabiana Neves Montagens: Fabiana Neves
CATEDRAL DA SÉ, ONDE TEBAS SE CASOU (ALFORRIADO) EM 1762 ÚLTIMA OBRA DE IMPORTÂNCIA HISTÓRICA EXECUTADA POR TEBAS: O MOSTEIRO DE SÃO BENTO (1897) IGREJA DE SÃO GONÇALO (SP), ONDE ESTÁ SEPULTADO O CORPO DE TEBAS


Montagens: Fabiana Neves
CONVENTO E IGREJA DO CARMO: SOFREU ALTERAÇÕES E DEMOLIÇÕES. HOJE, RESTA APENAS A IGREJA COM SUA TORRE
Nos documentos do Senado da Câmara de 1791, em ata no arquivo mun. 6XII, pag. 160, Tebas aparece como proprietário de dois escravos, ambos de nome João. Ainda nesse ano, os três trabalharam na construção do Chafariz da Misericórdia, inteiro talhado em pedra e com quatro torneiras. A obra foi dirigida por Joaquim Pinto de Oliveira Tebas, segundo consta nos documentos e, por isso, ficou conhecido como o Chafariz do Tebas.
O Chafariz da Misericórdia foi o primeiro chafariz público de São Paulo. Situava- se em um pequeno largo na Rua Direita, esquina com a Quintino Bocaiuva e a Álvares Penteado. A água era conduzida por gravidade das nascentes do Caaguassú, no atual bairro do Paraíso, por meio de tubos produzidos com papelão betumado. Por essa construção, o historiador Affonso Antônio de Freitas atribuiu a Tebas também o legado de ter construído o primeiro sistema público de abastecimento regular de água em São Paulo.
A última obra de importância histórica executada por Tebas foi no Mosteiro São Bento. Em 1897, a fachada da igreja beneditina ostentava arcos abatidos nas envasaduras e frontão triangular com ornamentos talhados em pedra por Tebas. "Também foi o Tebas quem talhou a pedra de fundação do mosteiro", conta Emanoel Araujo, diretor-curador do Museu Afro Brasil.
OS ÚLTIMOS ANOS
No livro de confessados da Catedral da Sé, de 1803, no qual os padres registravam todos os moradores da região, consta que Tebas estava com 82 anos e era viúvo, possuía e residia em uma casa na Rua das Freiras, em companhia de três filhas: Escolásticas, Gertrudes e Joaquina, mais dois escravos, ambos de nome João. Possivelmente, os mesmos que o ajudaram na construção do Chafariz da Misericórdia. Sob o número 3.525, no recenseamento de São Paulo, do ano de 1777, aparece o nome Joaquim Pinto de Oliveira, casado com Natária de Souza e pai de uma liberta de 9 anos, também chamada Natária. No ano do livro de confessados talvez Natária filha já estivesse casada ou morta e por isso não aparece nos registros.
O Chafariz da Misericórdia atribuiu a Tebas o
legado de ter construído o primeiro sistema
público de abastecimento regular de água em São Paulo
Em 1808, aos 87 anos, Tebas já não trabalha pegando no pesado. Obtera o título de Juiz de Ofício, conforme o documento descoberto por Nuto Sant'Anna (veja no Box): "Sem dúvida, essa foi uma das grandes conquistas de Tebas, pois uma posição importante como essa só era ocupada por portugueses", analisa Emanoel Araujo, diretor-curador do Museu Afro Brasil. O título de Juiz de Ofício, esclarece Carlos Lemos, professor da FAU, USP, era uma certificação de perito expedida exclusivamente pelo Quartel Militar de São Paulo, também conhecida como louvação. "Em visita ao Museu Histórico Ultramarino, em Lisboa, descobri um documento do Quartel Militar de São Paulo com os nomes de todos os louvados e Joaquim Pinto de Oliveira Tebas era o único negro da lista", atesta Lemos.
E foi nessa função que Tebas encerrou seus dias. De acordo com a certidão de óbito encontrada no arquivo da Cúria Metropolitana, Joaquim Pinto de Oliveira Tebas, morreu em 11 de janeiro de 1811, aos 90 anos, vítima de moléstia de gangrena. O velório e o sepultamento foram realizados pelo padre coadjutor José Veloso Carmo na Igreja de São Gonçalo, existente até hoje na Praça João Mendes, atrás da Catedral da Sé e a poucos metros do Marco Zero de São Paulo, a cidade que Tebas ajudou a construir.


Montagens: Fabiana Neves

 



Fonte:

 Filosofia  


 

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