Um retrato afetivo de Marighella

Documentário sobre Carlos Marighella procura resgatar as várias facetas do homem que morreu lutando para que o país incorporasse, como cidadãos de fato, o povo pobre e desassistido

Por Amilton Pinheiro | Fotos Rafael Cusato e Divulgação

TELEVISÃO
TROFÉU DO REGIME ASSASSINO
Esse material valiosíssimo, que não entrou na edição final do documentário sobre Marighella, estará nos extras quando o filme for lançado em DVD. Quem sabe possa servir, de alguma forma, para a Comissão da Verdade do Governo Federal. Os depoimentos eram tão pesados que toda a equipe do filme ia às lágrimas, revela a diretora. "A minha equipe, na sua maioria, era formada de jovens que não sabiam o que tinha sido os anos de ditadura no Brasil e as torturas nos seus porões. Teve dia que todos, inclusive eu, íamos almoçar e ninguém conseguia tocar na comida.
Voltávamos para as filmagens e chorávamos todos em comunhão." A decisão da diretora em não colocar esses depoimentos no filme é compreensível, pois ela queria retratar o homem por detrás do mito, que entrou para história como um facínora pelo regime militar, e que nunca foi devidamente revelado.
Depois de assassianado por 30 policiais do Departamento de Ordem Pública e Social (DOPS) de São Paulo, chefiado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, numa emboscada por volta das 8 horas da noite do dia 4 de novembro de 1969, na Alameda Casa Branca, em São Paulo, o guerrilheiro Marighella foi usado durante anos como espécie de troféu pelo regime militar. Os policiais que o mataram, juntamente com Fleury, tiraram vários fotos dele crivado de balas dentro de um fusca. Essas imagens foram usadas à exaustão durante muito tempo nos jornais, revistas e nos noticiários de televisão. A esposa de Marighella, Clara Charf, lembra com muita emoção daquele dia. "Estávamos em casa esperando por ele, quando ouvimos pelo rádio que Marighella tinha sido morto numa emboscada na Alameda Casa Branca. Eu me levantei e fui chorar num quarto. Como um homem tão bom, que passou toda sua vida lutando por um Brasil mais justo para o seu povo menos favorecido, pôde ser morto de uma forma tão violenta? Lembro do seu sorriso afável que sempre me alertava para que eu tivesse cuidado quando fosse às ruas. Ele dizia: `Clara, não fique rindo à toa, pois seu sorriso é muito expressivo e alguém pode desconfiar de você`. Vivíamos na clandestinidade, e ele sempre se preocupava comigo. Não somente comigo, mas com todas as pessoas que viviam ao seu lado."



Clara Charf, quando conheceu Marighella, já era militante: lutou contra a bomba atômica, participou de várias passeatas em defesa da paz e lutou arduamente contra o Golpe Militar de 1964. Hoje, aos 87 anos, é uma mulher ainda incansável na defesa de causas humanitárias. Em 2005, coordenou o livro Brasileiras - Guerreiras da paz, Projeto 1000 Mulheres, que foi lançado pela editora Contexto. Ela recebeu a reportagem da RAÇA BRASIL em seu apartamento, que fica numa rua tranquila do Bom Retiro, em São Paulo. A conversa só não foi totalmente agradável por causa das lembranças tristes do marido morto. Em diversas ocasiões, Clara chorou ao lembrar de Marighella, principalmente do dia de sua morte, 4 de novembro de 1969. "Tivemos que conviver com os noticiários eufóricos, celebrando a morte de Marighella. As manchetes de jornais e revistas e o noticiário estamparam durante semanas as fotos do meu marido morto dentro de um carro, todo ensanguentado. Foi difícil conviver com tudo aquilo e nada poder falar. Lembro de ter ficado desnorteada, sem chão durante semanas. Ele representava muito não só como meu marido, mas como um homem de convicções e de visão do país." Com a morte do marido, Clara foi viver no exílio em Cuba (passou 10 anos por lá, só voltando depois da Anistia de 1979), com medo do que poderia acontecer com sua vida. "Quando vivia na clandestinidade com Marighella, apesar do medo e das constantes ameaças, conseguia suportar tudo aquilo; ele me dava segurança, e eu admirava muito as causas pelas quais lutávamos." De volta ao Brasil, teve de continuar em silêncio, pois mesmo depois da Anistia, o nome de Mariguela continuava a ser um assunto carregado de significados negativos. "TIVEMOS QUE CONVIVER COM OS NOTICIÁRIOS EUFÓRICOS, CELEBRANDO A MORTE DE MARIGHELLA. AS MANCHETES DE JORNAIS E REVISTAS E O NOTICIÁRIO ESTAMPARAM DURANTE SEMANAS AS FOTOS DO MEU MARIDO MORTO DENTRO DE UM CARRO, TODO ENSANGUENTADO. FOI DIFÍCIL CONVIVER COM TUDO AQUILO E NADA PODER FALAR" Clara Charf se acostumou a viver na clandestinidade e a sofrer todo o tipo de perseguição, inclusive psicológica, junto com o homem que escolheu para casar (precisou fugir para poder se casar com Marighella, pois sua família judia não aceitava aquela união com um homem negro, comunista e ateu). Diante de tudo que passou, Clara conservou o otimismo em relação ao país. Inteligente, lúcida e com um belo sorriso afável, ela nos ensina que vale a pena ainda acreditar, mesmo que não tenhamos mais fé. O depoimento do ex-presidente Lula para o filme de Isa Grispum, que não entrou na edição final do documentário, sintetiza um pouco essa mulher extraordinária. "Se a Clara não tive nascido, ela tinha que ter sido criada."
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