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E.P. THOMPSOM E AS CONTRIBUIÇÕES PARA A HISTÓRIA SOCIAL E OS ESTUDOS
SOBRE ESCRAVIDÃO

Eleonora Félix da Silva
eleonora.felix@hotmail.com

Resumo: Este artigo tem como intuito tematizar as transformações nas concepções sobre a
narrativa histórica a partir das proposições conceituais elaboradas por E. P. Thompson, ao
estudar a atuação da classe operária inglesa como agente histórico principal de sua formação.
Com sua pesquisa o historiador inglês abriu novas perspectivas para a História Social. Para
concretizar o objetivo, este trabalho faz um exame do trabalho clássico “A formação da classe
operária inglesa”. Nela apontando aspectos centrais e analisando como, nesta narrativa sobre a
história dos operários ingleses, o autor operaliza seus conceitos e se diferencia de outros
paradigmas historiográficos. Para acrescentar, o trabalho analisa ainda como as concepções
thompsonianas podem ampliar os estudos acerca da escravidão e da abolição no Brasil durante a
segunda metade do séc. XIX.
Palavras – chave: Thompson – Historiografia – História Social
O historiador inglês Edward Palmer Thompson foi membro do Partido Comunista inglês e
influenciado pelo marxismo. Ele foi um marxista que repensou o marxismo, sobretudo em seus
silêncios. Em sua narrativa trouxe rupturas com o modelo marxista dos seus antecessores. Sua
obra é famosa pela renovação historiográfica e composição da chamada História Social Inglesa,
pois renovou a narrativa história sobre os trabalhadores ingleses.
Esta renovação se deu com o lançamento do livro “A formação da classe operária inglesa.” Livro
lançado em 1963 em três volumes, que inovou a análise sobre as origens da classe operária
inglesa no período de 1790 a 1832.
Thompson, a partir de uma investigação empírica, examina o “fazer-se” da classe operária inglesa
mostrando que este foi um processo ativo. Assim, a classe operária não foi determinada de uma
hora para outra. Ela se constituiu e participou ativamente deste fazer-se.
Isto ele explicitou no famoso prefácio de “A formação da classe operária inglesa: a árvore da
liberdade”, tão estudado e enfocado pelos que se interessam pela obra do historiador em
questão, onde inicia sua obra explicitando sua concepção de classe, a qual é diferente da noção
clássica de classe para os marxistas:
“Não vejo a classe como estrutura, nem mesmo como uma categoria, mas
como algo que ocorre efetivamente e cuja ocorrência pode ser demonstrada2
nas relações nas relações humanas (...) a noção de classe traz consigo a
noção de relação histórica (...) A classe acontece quando alguns homens,
como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem
e articulam a identidade de seus interesses diferem (e geralmente se opõem
dos seus).” (THOMPSON: 1987, P.9-10)
Nestas célebres palavras, Thompson considera que a formação da classe operária inglesa como
processo ativo que se deve tanto a ação humana como aos condicionamentos sociais – ela
formou-se a si própria. A classe é constituída por homens e mulheres em suas ações e relações
sociais. Como relação histórica, uma classe relaciona-se com outra. A classe se define pela sua
história e como formação social e cultural, que só adquire existência ao longo de um processo
histórico que envolve as experiências dos trabalhadores.
Uma marca da teoria thompsoniana é noção de experiência que o autor enfatiza. A experiência –
termo ausente na ortodoxia marxista – permite perceber e reconhecer as ações humanas fazendo
a história. Esta é feita por agentes efetivos e não uma história em que predomina estruturas sem
sujeito. São as experiências cotidianas “herdadas ou partilhadas” e de lutas das pessoas que
contribuem para seu fazer-se. Logo, a classe não é só determinada pela posição econômica que
o indivíduo assume dentro da estrutura de produção em sua sociedade.
Com isto o historiador inglês cunhou o conceito de agenciar humano percebendo os
trabalhadores como sujeitos de sua história, daí ele se preocupar com as experiências efetivas
dos trabalhadores ingleses, não sendo estes receptores inertes de determinações de outra classe
que os considera inferiores. Por isso, Thompson não acreditava que o proletário precisasse de
algum tipo de guia para adquirir consciência.
A classe é uma experiência, ou as experiências, vivida pelas pessoas, que as fazem membros
participantes da classe:
“A experiência de classe é determinada em grande medida, pelas relações
de produção em que nasceram (...). A consciência de classe é a forma
como essas experiências são tratadas em termos culturais encarnadas em
tradições, sistemas de valores, idéias e formas institucionais” (THOMPSON:
1987 p.10)
Só a experiência econômica não indica a classe, mas envolve também as experiências cotidianas
culturais, as idéias, as tradições e os valores das pessoas. O fazer-se dos sujeitos na classe se
dar a partir das experiências delas.
Estas noções de experiências vividas pelos trabalhadores, marca a ruptura de Thompson com a
noção clássica de classe dos marxistas, refutando-a por defini-la apenas de acordo com a3
posição que o indivíduo assume dentro da estrutura econômica ou em relação com os meios de
produção. Como se têm afirmado, Thompson “rejeita a metáfora base/superestrutura.”
Como lembra Suzanne Desan, há uma formação cultural de identidade de classe, numa interação
dialética entre elementos materiais e culturais de existência, tendo os fatores culturais uma
primazia na formação da classe.
Ainda no prefácio de sua obra, ele diz que K. Marx não via a classe como coisa, nem ela o é,
também não é uma fórmula matemática. Entendê-la assim é tomá-la equivocadamente. Tem-se
então, uma crítica do autor ao equívoco das tradições marxistas ao tomar a classe como fórmula
da qual se pode deduzir a consciência de classe. Thompson critica os que pensam a classe como
algo preciso na estrutura social e a consciência de classe como algo inventado pelos
trabalhadores. Na perspectiva do autor a classe não existe para ter um interesse ou consciência
ideal. Partidos, seitas, teóricos, não desvendam a consciência de classe, nem impõe como
deveria ser. Daí ele se interessar pela forma “como o indivíduo veio a ocupar um papel social.”
Thompson, ao enfocar as experiências dos trabalhadores como vítimas passivas da classe dos
donos dos meios de produção. Discorda das ortodoxias que obscurecem a atuação dos
trabalhadores no fazer-se da história, valorizando-os.
Para efeito do seu objeto de estudo, ele enfoca os trabalhadores ingleses e seu fazer-se como
classe, transformando o estudo da Revolução Industrial em secundária, pois o objeto central é a
vida dos trabalhadores. Diferentemente das abordagens anteriores que só interessava-se por
aquele processo de desenvolvimento capitalista sem abordar a situação dos trabalhadores que
sofriam as conseqüências daquele processo histórico:
“Estou tentando resgatar o pobre tecelão de malhas, o meeiro
luddita, o tecelão do obsoleto tear manual, o artesão utópico (...).
Suas aspirações eram válidas nos termos de sua própria
experiência” (THOMPSON: 1987, P.13)
Como se pode notar, Thompson se dispôs a pensar a história dos que não foram lembrados no
processo de industrialização pelas ortodoxias tradicionais, uma história das pessoas comuns
enfim uma história “vista de baixo” ou “dos de baixo” ou “History from Bellow.”
Regina Hostins conclui a este respeito que, ao selecionar seus temas e periodização histórica
(1780 – 1832), o autor rompia com as ortodoxias predominantes que resgatavam experiências e
memórias dos vitoriosos e obscureciam a atuação da “gente comum” na construção histórica: “Os
becos sem saída, as causas perdidas e os próprios perdedores são esquecidos” (THOMPSON:
1987, p.13)
Em “A formação da classe operária inglesa: a árvore da liberdade” (1987) pode ainda pinçar as
características marcantes do seu trabalho e visualizar como os seus conceitos vão se explicitando
em sua narrativa.4
Sua narrativa sobre a formação da classe operária inglesa começa analisando a Sociedade
Londrina de Correspondência e sua pretensão de ter um número ilimitado de membros, usando
como fonte as memórias de Thomas Hardy (Memoir of Thomas Hardy) e as atas de reuniões da
associação. A Sociedade Londrina de Correspondência foi fundada por aquele artesão em 1792,
cujo primeiro encontro ocorreu numa taverna em Strand. Na taverna os participantes comeram,
beberam, conversaram sobre a “dureza dos tempos e as reformas parlamentares”.
Na taverna os trabalhadores conversaram sobre política e economia, discutindo seus direitos:
“Nós que somos artesãos, lojistas e artífices mecânicos, temos algum direito a obter uma
Reforma Parlamentar? (...) Declaro que sim.” (THOMPSON: 1987, P.16)
Meses após sua criação, o número de membros – que era inicialmente de nove _ passou para
2000 membros, numa expressiva expansão. Com este crescimento a relação dos trabalhadores
com as atividades passou a ser conflituosa. As autoridades mandaram prender T. Hardy e seus
companheiros, acusados de alta traição. Nesse clima de tensão a sociedade foi proscrita e livros
de reformadores foram proibidos.
Thompson explora a Sociedade Londrina de Correspondência como “primeira organização
política de perfil operário definido da Grã-Bretanha”, embora ele aponte que já havia outras fora
de Londres e afirma, “talvez seja mais preciso pensar a Sociedade antes “radical popular” do que
operária” que servia como ocasião social e espaço e espaço de debate político.
Nos seus espaços cotidianos o povo discutia questões políticas e econômicas, pois “a taberna, a
capela e o bar eram seus”. Mas a principal característica da Sociedade Londrina de
Correspondência era ser uma forma de organização política dos trabalhadores, o que não era
práticas exclusivas da elite, que atemorizava as autoridades. Na organização de sociedades
como a Sociedade Londrina de Correspondência com participação de trabalhadores – alguns
altamente qualificados – descontentes com a situação política inglesa propunham uma noção de
participação democrática na política.
Sua concepção sobre as ações e relações sociais da classe trabalhadora também se expressa
quando refere-se a Sociedade Londrina de correspondência: “implicava uma noção de
democracia, que punha de lado as velhas inibições e confiava nos processos de auto-avaliação e
auto-organização da gente simples.”(THOMPSON: 1987, p.20)
Em sua teia sobre a origem da classe operária ele inclui a dimensão cultural no capítulo “Cristão e
Demônio”, a partir da religiosidade enquanto parte da experiência dos trabalhadores subalternos.
Fugindo de obscurecer a atuação dos trabalhadores no seu “fazer-se”, Thompson aborda a
dissidência religiosa após a Revolução Gloriosa. A dissidência assumiu formas diversas em
diferentes meios sociais, lutando pela liberdade religiosa e trabalhavam pelas liberdades civis.
Algumas dissidências atraíam classes em prosperidade, outras, os pobres.
Thompson aborda-as como experiências de disciplinarização, fermento para a discordância
religiosa e política contra o governo e a situação política. Para o historiador inglês “muitas vezes5
sentem-se nela os germes Adormecidos do radicalismo político.” (THOMPSON: 1987, P.36)
Sobressaindo o metodismo como força social, “uma religião para os pobres”, submetidos a uma
severa disciplina que atraía pedreiros, mineiros, operários e este foi um setor positivo ao
movimento operário, “indiretamente responsável por um aumento na autoconfiança e capacidade
de organização do operariado,” servindo com modelo de organização:
“O metodismo proporcionou não só as formas de reunião, coleta
regular de subscrições em dinheiro e cédulas tantas vezes por
organizações sindicais e radicais, como também uma experiência de
organização centralizada eficiente.” (THOMPSON: 19687, P.44)
No segundo volume da obra, “A maldição de Adão” (1988), após ele ver no metodismo uma base
inicial para as organizações radicais e sindicalistas, em que o operariado sentia-se mais confiante
e capaz de organizar-se, Thompson entra no cotidiano dos operários e analisa experiências de
grupos de trabalhadores inseridos no quadro do desenvolvimento capitalista. Têm-se com
detalhes experiências das condições de vida dos trabalhadores no contexto da Revolução
Industrial. Estas experiências de exploração e de insatisfação dos operários contribuíram para o
fazer-se da classe operária e a formação de uma consciência de classe.
Thompson “resgata” experiências de vida dos trabalhadores antes e durante o crescimento da
economia fabril, referente ao consumo, condições de habitação, de saúde, mortalidade e o
trabalho infantil.
Na discussão a respeito do padrão de vida durante a Revolução Industrial o autor mostrou que
entre 1790 e 1840 o produto nacional cresceu mais que a população e, no entanto, a distribuição
foi desigual para a população, haja vista o declínio do consumo de trigo e de cerveja entre os
trabalhadores. Assim, houve um decréscimo da participação da classe operária no produto
nacional em relação às classes proprietárias. Enquanto havia aumento da riqueza nacional o
trabalhador médio manteve-se no nível de sobrevivência, ou seja, com seu trabalho gerava uma
riqueza para seus patrões. Contudo, a análise thompsoniana mostra o declínio do padrão de vida
durante a Revolução Industrial.
No final do séc. XIX os trabalhadores viviam em habitações de baixo nível e enfrentavam sérios
problemas urbanos como falta de abastecimento d’água e saneamento, superpopulação, etc.
Para o autor, os problemas urbanos foram conseqüências do contexto de crescimento
demográfico sem controle e da ignorância. São problemas inerentes a uma sociedade
fundamentada na obtenção do lucro e sem planejamento.
Com o avanço da Revolução Industrial, a superpopulação e a depravação nas cidades, a saúde
da população começou a se deteriorar e as taxas de mortalidade infantil cresceram. Nestas
condições a longevidade entre os operários não era comum. A alta da mortalidade pode ser
atribuída a doenças, no entanto Thompson enfatiza como principal causa as miseráveis6
condições de vida e a fadiga pelo excesso de trabalho. Thompson relata que as ocupações
industriais eram tão desgastantes que provocavam sérios problemas físicos aos operários e
comprometiam sua expectativa de vida, que era pior que a dos trabalhadores rurais.
As experiências de vida da mão-de-obra infantil não foram esquecidas por aquele historiador.
Entre os anos de 1780 a 1840 houve uma drástica intensificação da exploração do trabalho
infantil nas minas e fábricas; o trabalho era intenso e a jornada era longa. Esta situação gerava
insatisfação entre os operários que realizavam protestos contra o tratamento das crianças nas
fábricas. Thompson demonstra que antes da Revolução Industrial já havia uso do trabalho infantil,
porém não era predominante nem tão intenso como o que estava se verificando nas fábricas:
“Herdou as piores feições do sistema doméstico (...) sistematizou o trabalho
das crianças pobres e desocupadas, explorando-o com uma brutalidade
tenaz (...) Na fábrica a máquina ditava as condições, a disciplina, a
velocidade e a regularidade da jornada de trabalho, tornado-as equivalentes
para o mais delicado e o mais forte.” (THOMPSON: 1988, P.207)
A crueldade no uso do trabalho infantil na fábrica não ficava indiferente para os pais das crianças.
Eles ingressaram nas lutas pela redução da jornada de trabalho, contribuindo para a formação de
Comitês pela Redução da Jornada dos Trabalhadores, contra os quais houve a formação das
Comissões das Fábricas que defendiam os interesses dos patrões. Contra a crueldade, os
Comitês para Redução da Jornada organizavam campanhas entre os operários. Ao movimento
fabril agregaram-se pessoas que não eram operários, como os tecelões. O movimento fabril
representava “a afirmação dos direitos humanos pelos próprios operários” e não um crescimento
do humanitarismo da classe média.
Essas narrativas acerca da opressão de seres humanos no seu mundo do trabalho, destruindo
seus modos de vida, mostram como os trabalhadores das fábricas vão construindo uma
identidade entre si e nestas lutas comuns vai elaborando uma consciência de classe, fruto de
suas experiências. Como já foi citado anteriormente, “A consciência de classe é a forma como
essas experiências são tratadas em termos culturais, encarnadas em tradições, sistemas de
valores, idéias e formas institucionais.” (THOMPSON: 1987, p.10)
Em “A força dos trabalhadores” (1989) Thompson vai narrando como o operariado fortalece-se
como sujeito histórico e político, resistindo aos valores que lhe eram impostos pela Revolução
industrial. O fortalecimento do proletariado era algo que não era determinado pelo
desenvolvimento capitalista, mas pelas relações que os trabalhadores estabeleciam dentro de
uma crescente resistência a opressão fabril, encarnado nos patrões, num processo ativo de
autofazer-se da classe operária.
E. P. Thompson faz uma narrativa abordando os anos de 1820 em que R. Carlile lutava pela
liberdade de imprensa, em que há o aumento da força radical e da revogação das Leis de7
Associação, etc. Sendo que no final deste período formou-se uma nova forma de consciência dos
trabalhadores enquanto classe.
Com o radicalismo popular e o autodidatismo dos trabalhadores ao aprender leis e alfabetizar-se,
ou seja, por experiência própria, os trabalhadores formaram um quadro político da organização
social. Por volta dos anos de 1830 já se tinha um amadurecimento de uma consciência de classe
dos trabalhadores com a qual os mesmos firmaram suas lutas.
Apesar do analfabetismo os operários não se excluíam do discurso político – como outros
indivíduos. Os analfabetos pediam aos companheiros de trabalho que lessem os jornais em voz
alta, outros sabiam ler e pouco escrevia, uns tinham dificuldades na interpretação de expressões
usadas, tais como sufrágio universal. Os operários se enquadravam no movimento esforçando-se
para ampliar o nível de consciência política através da leitura de periódicos. O teatro e a
caricatura popular também foram usados como forma de “instrução secundária.” Apesar das
nuances, o historiador inglês afirma que não se pode fazer generalizações quanto a instrução dos
operários.
No contexto de crescimento do movimento radical a luta contra a repressão da imprensa passou
a ser parte integrante do movimento. Thompson indica exemplos de líderes perseguidos pelas
autoridades. A luta pela liberdade de pensamento influenciou o movimento do operariado.
O movimento radical dos operários contou com lideranças intelectuais, que defendiam de formas
diferentes a mobilização dos trabalhadores e influenciaram a formação da consciência de classe.
Todavia, a defesa de Thompson é que “o cidadão só tinha dever com a razão”, não precisava de
terceiros, tais como um partido. O uso da razão era o único organizador e através de jornais se
divulgavam as idéias nascidas com o uso da razão.
Contra a exploração capitalista – a narrativa thompsoniana mostra – houve tentativas de colocar
em práticas as idéias owenistas como a formação de unidades de cooperação para os
trabalhadores.  Ele mostra o exemplo dos artesãos como o mais claro meio de formação de uma
comunidade que gera sua própria sustentabilidade e colaboração mútua. O autor afirma que
owenismo foi um dos “impulsos que captaram o entusiasmo das massas” e contribuiu para a
conscientização dos trabalhadores acerca dos seus “interesses e aspirações enquanto classe”.
Segundo o historiador, a contribuição de Owen para o movimento radical foi mostrar que o
capitalismo não é uma lei natural, sendo possível sua transformação.
Enfim, entre meados de 1831/33, a classe operária não estava mais no seu fazer-se, porém já
feita e sua presença se fazia em toda a Inglaterra. A nova consciência de classe dos
trabalhadores notava-se na consciência de identidade de interesses entre os diversos grupos
profissionais, isto estava expresso nas instituições e no sindicalismo.
A consciência de identidade de interesses da classe trabalhadora das fábricas – em oposição a
outras classes – estava amadurecendo e os fazia reivindicar sistemas alternativos. O autor relata8
movimentos reivindicatórios dos operários através do movimento radical. Eram os próprios
operários agindo contra a burguesia industrial. Esta temia uma revolução radical.
Apontando as experiências de luta dos operários, Thompson afirma que a agitação na Inglaterra
era tão grande que se temia a revolução. Todavia, os operários não obtiveram todas as
reivindicações feitas, mas foram suas lutas durante anos que contribuíram para sua formação
enquanto classe.
Para Thompson, consciência de classe não era submissão, tendo o operário lutado, não contra
as máquinas, mas contra a opressão que o capitalismo industrial impunha-lhes. Nestes embates,
eles lutaram e “nutriram por mais de cinqüenta anos e com incomparável energia, a árvore da
liberdade.”
Com estas proposições Thompson realizou uma História Social, baseando-se numa pesquisa
empírica em fontes diversas, tais como jornais, panfletos, livros de atas, etc. O autor fortaleceu as
perspectivas da História Social Inglesa, paradigma historiográfico que emergiu nos idos de
1950/60 com os historiadores de tradição marxista. A História Social tem ganhado bastante
evidência com os trabalhas de E. P. Thompson e outros historiadores como Cristopher Hill e Eric
Hobsbawn.
Os historiadores sociais – sob influência de Thompson – direcionam suas pesquisas para a
história das grandes massas ou para o estudo de grupos sociais de várias espécies em oposição
às biografias de grandes homens. Outras grandes áreas de interesses e objetos são os modos de
organização social, as classes sociais, as relações conflituosas ou interativas entre os grupos
sociais no interior de uma sociedade, os excluídos, as desigualdades sociais, os discriminados,
processos de transformações da sociedade, posições sociais em relação ao trabalho, as
minorias, um grupo profissional, uma comunidade rural ou urbana. No entanto, não esquecem o
universo da cultura dos sujeitos históricos que tematizam.
Em “A formação da classe operária” Thompson acrescentou o exame do mundo cultural dos
trabalhadores. Ao realizar seu estudo o historiador em foco, acrescentou a dimensão cultural ao
materialismo histórico. Seu interesse pela problemática cultural não se encerrou aí. Nos seus
estudos posteriores ele passou a pesquisar rituais, vendas de esposas, rough music, motins da
fome, enfim os costumes dos populares ingleses do séc. XVIII. Nestes estudos, Thompson
examina a tradição popular, a cultura e a sociedade na perspectiva da história vista de baixo, do
incomum e dos oprimidos.
Em “A economia moral da multidão inglesa no século XVIII” (1998) Thompson tem a gente
comum como agente histórico para estudar os motins da fome na Inglaterra do séc. XVIII, nos
quais os motins são tomados como períodos de perturbação social como reação dos populares
às crises econômicas.  O historiador inglês tenta explicar estes fatos fugindo do reducionismo
econômico e buscando o sentido cultural dos motins populares. Rompendo com a visão de outros9
historiadores, Thompson mostra que a ação popular era legitimada pela defesa dos direitos e
respeito ao que ele chama de “economia moral”:
“O motim da fome na Inglaterra do séc. XVIII era uma forma
altamente complexa de ação popular direta, disciplinada e com
objetivos claros (...) É certamente verdade que os motins eram
provocados pelo aumento dos preços, por maus procedimentos dos
comerciantes ou pela fome. Mas essas queixas operavam dentro de
um consenso popular a respeito do que eram práticas legítimas e
ilegítimas na atividade do mercado, dos moleiros, dos que faziam o
pão, etc.” (THOMPSON: 1998, P. 152)
E mais ainda temos como definição dessa “economia moral”:
“(...) Tinha como fundamento uma visão consistente tradicional das
normas e obrigações sociais, das funções econômicas peculiares e
vários grupos sociais na comunidade, as quais, consideradas em
conjunto, podem dizer que constituem a economia moral dos pobres.
O desrespeito a esses pressupostos morais tanto quanto a privação
real, era o motivo habitual para a ação direta” (THOMPSON: 1998,
P.152)
Ao abordar as formas de protesto no séc. XVIII deixa a Revolução Industrial e desloca-se “de uma
sociedade submetida a um acelerado ritmo de mudança para uma sociedade governada pelo
costume”, com as práticas e costumes consuetudinários.  Escrevendo na forma de narrativa,
literária, Thompson explora o conceito de economia moral ao pesquisar sobre os motins
populares que ocorriam na Inglaterra sempre que um costume consuetudinário era
desrespeitado, quando o preço justo fosse desrespeitado os populares reagiam. Assim, neste
trabalho a noção de resistência e de agenciar humano proposto por Thompson, se faz presente.
O deslocamento de Thompson do mundo do trabalho para o mundo da cultura se faz perceber
também em “A venda de esposas” (1998) onde ele estuda esse ritual existente na Inglaterra, nos
séc. XVIII e XIX.  Explorando as fontes, tais como jornais, o historiador descreve essas vendas de
esposas como rituais e leilões públicos com entrega da mulher presa por uma corda, existente
entre os “estratos mais inferiores dos trabalhadores” e era um ritual – ou seja, não era ocasional –
que obedecia às normas e que era de diferentes tipos, tais como os que ocorriam sem o
consentimento da esposa; os casos sem informações; os casos de esposas vendidas aos
amantes; etc.
Enfim, Thompson interessou-se, nos 300 casos pesquisados, pelo simbolismo presente nesta
forma de “divórcio consentido”, “transferência legítima de parceiros matrimoniais”, num contexto10
de “uma sociedade em que as relações de gênero eram estruturadas em modos de
dominação/subordinação” (THOMPSON: 1998, P.345)
Em “A venda de esposas” e “A economia moral da multidão” Thompson se volta para explicar o
“significado simbólico” dessas tradições populares, sob inspiração da Antropologia Cultural de
Clifford Geertz. Para fazer um estudo sobre as tradições populares na Inglaterra no séc. XVIII e
dar voz aos “de baixo”, o historiador inglês fez um diálogo com a antropologia, o que contribuiu
para a ampliação das abordagens na história Social, esta também se preocupa com as
percepções culturais populares, seus comportamentos e atitudes na vida cotidiana.
Suzanne Desan mostra que nas primeiras obras de Thompson não havia influência da
antropologia, tendo ele relutado em confiar nela como instrumento de análise. Porém, ao
tematizar a sociedade cheia e costumes do séc. XVIII, Thompson valorizou a influência da
antropologia. Com a antropologia foi dado impulso a novos problemas com ênfase nas normas ou
sistemas de valores e rituais, na atenção às formas de tumultos e distúrbios e nas expressões
simbólicas de autoridade.
Sobre essa aproximação de Thompson com a antropologia,  Gervácio B. Aranha esclarece:
“Thompson busca inspiração na antropologia para fins de
incorporação de aspectos simbólicos inscritos nas ações dos atores
sociais que analisa (...) para decifrar o significado simbólico inscrito
na ação dos homens, mas o faz em relação a essa ação situada em
determinado tempo e lugar. Com isto, ele evita empobrecer seu
trabalho com as generalizações próprias da Antropologia estrutural
simbólica ou de uma Antropologia que passa ao largo da
transformação histórica.” (ARANHA: 2008, P.36)
As proposições teóricas de Thompson contribuíram para a renovação historiográfica que vem
ocorrendo desde os anos de 1960. No tocante à questão da relação entre a História Social e a
Historiografia brasileira, nota-se uma receptividade acadêmica, no que se refere aos temas e
discussões da História Social, redimensionando a escrita acerca da História do Brasil.
Redimensionou, em particular, a escrita da História dos negros e da escravidão no Brasil. Aqui, a
historiografia influenciada pela História Social, ampliou os estudos sobre a escravidão, sendo
referência teórica constante entre os historiadores, principalmente a partir da década de 1980, no
sudeste do país.
A partir desse período houve uma proliferação de trabalhos acadêmicos sobre escravidão e
abolição no Brasil, centrando-se nas experiências dos escravizados enquanto sujeitos históricos.
As análises destes trabalhos apresentam fortes influências teóricas dos estudos de E. P.
Thompson. Como afirma Sílvia Hunold Lara,  sob inspiração thompsoniana “alguns historiadores
começaram a insistir na necessidade de incluir a experiência escrava na história da escravidão no
Brasil.”11
Com a renovação dos estudos históricos, influenciada pela História Social, os escravos deixaram
de serem vistos apenas como mercadorias. Estuda-se hoje a escravidão e a abolição encarando
os escravizados como agentes históricos, que agenciaram sua própria história, não foram vítimas
passivas do sistema escravista.
Rompendo com as interpretações tradicionais, são as experiências dos cativos, agindo em favor
da conquista da liberdade que interessa nos estudos sobre o tema. Ainda sob influência
thompsoniana, tematiza-se as relações conflituosas entre senhores e escravos. Incluem-se
também estudos sobre família, cultura, cotidiano e as múltiplas formas de resistência escrava.
Exemplos de trabalhos sob inspiração das concepções teóricas de Thompson e de grande
repercussão na historiografia brasileira sobre a escravidão e abolição são, entre outros, “Visões
de Liberdade” (1990) de Sidney Chalhoub; “Cenas da Abolição” (2001) de Joseli Nunes
Mendonça; “O plano e o pânico” (1994) de Maria H. P. T. Machado e “Derramando susto; os
escravos e o Quebra-quilos em Campina Grande” (2006) de Luciano Mendonça de Lima. São
trabalhos que abordam experiências da vida dos cativos e mostram que a resistência à
escravidão não se deu apenas na forma de rebeldia, nem a abolição foi um vento produzido pelas
elites.
Para finalizar, são com estas noções preliminares acerca das concepções teóricas da História
Social que pretendo realizar uma pesquisa sobre escravidão e abolição na cidade de Areia-PB, no
contexto do séc. XIX, durante o curso do programa de pós-graduação em História na UFCG. O
conhecimento produzido sobre a temática proposta tem se limitado a discutir a questão da
antecipação à Lei Áurea e a ação da elite local naquele processo histórico. No entanto, sob
inspiração da História Social é preciso problematizar o agenciar dos cativos cotidianamente em
favor de sua liberdade e minando o escravismo naquele território.

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