Entrevista a Larry Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer - realizadores de «Cloud Atlas»

Cloud Atlas combina relações cármicas passadas, com elementos da teoria do caos, num verdadeiro potpourri de géneros. Complicado? Podem crer. Mas que nos pede uma saborosa segunda visão e, inevitavelmente, se cola a nós. 

Larry Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer

Everything is connected, tudo está interligado. Tal como o bater de asas de uma borboleta pode afetar o curso natural das coisas, também uma ação e uma reencarnação poderá acabar nos juntar a outros. Neste caso, foi o que sucedeu com cinema do alemão Tom Tykwer – lembram-se de Corre, Lola Corre (1998), explorando as diferentes possibilidades do mesmo ato? – a aliar-se ao dos manos Wachowski que tão bem combinaram o policial, a ficção ficção científica num novo universo filosófico na trilogia Matrix. Percebe-se a atração mútua pelo projeto. É esta viagem intemporal que nos sugere Cloud Atlas, o ambicioso filme de Tykwer (47) Andy (45 anos) e Lana (47), na complexa adaptação do romance de David Mitchell
Ela que era Larry (Laurence), antes de assumir a transição transexual que decorreu durante a última década. Lana Wachowski é agora o seu nome oficial, tendo Larry sido apagado, por exemplo, das listas da IMDB. Apesar dos Wachowski recusarem entrevistas e não aparecerem em público há mais de uma década, o contrato com a Warner, a distribuidora do filme, acabou por fazer com que Lana saísse definitivamente do armário e se revelasse publicamente na apresentação de Cloud Atlas em Toronto. Aviso à navegação: ainda que se corra o risco da curiosidade sobre a sexualidade de Lana se sobrepor ao tema do filme, convém desde já dizer que muito do que se passou com ela é também abordado em Cloud Atlas. Tudo começou quando leram o livro há seis anos atrás; e que começaram a escrever na Costa Rica, logo após a eleição de Obama. Quatro anos de pré-produção e 60 dias de rodagem. É obra.

Eram uma vez seis histórias...
Um diário a bordo de um navio no Pacífico, em 1949, relaciona-se com cartas de um compositor a um amigo; ainda o mistério de um homicídio numa central nuclear, a farsa de um editor numa casa de repouso, a rebelião de clones na futurista Neo Coreia; por fim, uma lenda de uma tribo num Havai pós apocalíptico próximo do terceiro milénio...
 


Então, são agora três gémeos, como dizem?
Tom Tykwer – (risos) É verdade. 
Lana Wachowski – Sim, adotamos o Tom.(risos)
Andy Wachowski – Vamos todos casar-nos... (risos)
(Risos) Na verdade, todos dizem que se complementam. É algo que já vem de trás?
AW – Desde miúdos que brincávamos juntos. Éramos inseparáveis. Sempre quisemos trabalhar juntos. Abrimos uma empresa de pintura para pagar a universidade e quase ao mesmo tempo saímos de escolas respeitáveis e acabamos a fazer uma empresa de construção. E fizemos a casa dos nossos pais. Ainda lá está... (risos) Adoro a minha maninha!
LW – É muito bonito ter uma pessoa assim tão perto, com que posso partilhar leituras. Juntos partilhávamos os mesmos sonhos. Fomo-nos desafiando um ao outro. Um pouco como sucedeu quando o Tom entrou a bordo do projeto. Até porque se tratava de um sonho impossível. Apesar de parecer uma equipa impossível, acabou por funcionar muito bem. Às vezes éramos nós que desanimávamos, mas o Tom puxava por nós e dávamos alento.
TT – É um belo que filme que atravessa raças, supera diferenças de sexo. Nesse sentido, é um filme que abre muitas janelas. 
Como é que dividiram o vosso trabalho no filme?
TT – Sim, tínhamos três equipas. Por vezes, encontrávamos-nos via skype e partilhávamos planos. Mas estávamos sempre ligados.
AW – Por vezes, estávamos todos juntos. Mas era raro.
LW – Toda a planificação, as transições, que eram muitos meses. Mas depois a rodagem foi toda em apenas 60 dias. Todo o trabalho digamos que aconteceu antes. Mesmo o trabalho com os atores foi feito antes em ensaios.
TT – Eu poderia envolver-me mais com a música e a composição, pois também componho, ao passo que o universo de ficção científica teria de pedir mais ajuda ao Andy e Lana.
E como foi pegar neste livro, considerado ‘impossível’ de adaptar?
LW – Foi isso mesmo que nos atraiu. Pois era um desafio tentarmos os três perceber como isso poderia ser feito. Fundir a estética e os estilos. Ainda que os nossos filmes tenham semelhanças profundas. Fomos descobrindo que gostávamos das mesmas partes do livro e das suas justaposições. Eram indicadores de que poderíamos trabalhar juntos. Mas o romance tem elementos de cada história que incluem partes que se ligam uma a outra. 
Quase como um puzzle...
LW – Sim, como um puzzle. 
TT - O autor David Mitchell é um génio. Na nossa visão ou ele gostava do que fazíamos ou abandoávamos a ideia. Quando o conhecemos foi incrível.
LW – Estávamos nervosíssimos. Eu estava assustadíssima ao entrar num hotel em Cork, com mais de 100 anos. Começamos a reorganizar o quarto onde nos iríamos encontrar. Foi absurdo...
TT – Mas depois entra um tipo simpático e envergonhado. Mas já tinha lido o guião. Ele disse uma coisa interessante: “Eu tenho estas peças de Lego e tenho o meu castelo complexo; vocês mantiveram as mesmas peças e fizeram o vosso próprio castelo”. O que ele receava era uma descrição passo a passo do romance.
LW - Explicamos-lhe as nossas alterações e percebemos que ele tinha ficado fascinado. Nós adoramos o livro e ele o filme. 
Existe no filme um lado de consciência social interessante e atual...
LW – Gostamos da relevância de poder invocar os crimes passados ou injustiças ainda estão presentes em diferentes formas. Mas ainda acreditamos que existe um progresso indesmentível na nossa espécie. Especialmente, as mulheres têm a possibilidade de perceber como em pouco tempo as suas vidas mudaram. Mas os problemas continuam presentes. Quisemos que esse subtexto estivesse presente. O romance transcende essa ideia de ultrapassar barreiras. De resto, a transcendência pessoal é algo que tem estado presente no nosso trabalho.

Tom Hanks e Jim Sturgess 
Apesar de não ter lido o livro, é interessante ver como usam atores para diversos papéis, em ambos os sexos. É interessante como transcendem esse aspecto. 
LW – Acho que há humanidade está para além da nossa pele. A humanidade deve estar para além do género humano, da raça, da idade. Espero que alguém que veja o filme possa pensar também nesses aspetos. Nós construímos paredes para o outros. E enquanto as tivermos é mais difícil ser cruel.
Ao mesmo tempo, no filme de Tom, Três, esse lado da sexualidade também é transcendido. Acham que este filme pode ajudar a transmitir essa abertura e estereótipo?
TT – É interessante como coloca a questão, porque algo que nos atraiu em contratar um ator para as diferentes encarnações. Isso permite-lhes interpretar a humanidade. Um jovem, um homem uma mulher, um velho, um negro, um chinês. Mas no fundo são todos a mesma coisa. Há uma alma que atravessa todas essas encarnações que representa a perspectiva humana. E não foi nada que considerássemos religioso. Todos sabemos que transportamos genes de outras gerações. É tudo algo que está dentro de nós.
Lana porque sentiu que foi agora o momento para abordar esta transformação? Até que ponto foi importante para si? E acha que este filme tem esta mensagem?
LW - Sinto alguma responsabilidade em tornar pública esta minha decisão. Apesar de não ser uma celebridade, isso é algo que afecta bastante a minha vida. Mas como temos também um novo gémeo que gosta de gosta de falar com a imprensa. É algo com que eu própria me estou a tentar reconciliar.
Acha Cloud Atlas que tem potencial para ser um blockbuster?
TT - Não pensámos nisso. Um aspeto que nos une é que pode ser vendido como peça experimental, mas também como um filme popular. É um filme cheio de ideias, mas com muito entretenimento
AW – Sim, vão todos ver!

Artigo retirado do site www.c7nema.net

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