Um olhar feminino sobre a Bíblia


Nascida na Itália, Irmã Tea Frigério é missionária de Maria Xaveriana. Chegou ao Brasil como missionária em 1974 e é uma das maiores referências em estudos da Bíblia na Amazônia e no Brasil. Ela é mestra em Ciência da Religião e em Assessoria Bíblica Popular. Atua como assessora do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), faz parte do Conselho Amazônico de Igrejas Cristãs (CAIC) e do Comitê Inter-religioso do Pará. Entre os trabalhos que desenvolve está o estudo da Bíblia na ótica da mulher. Reflexão essa que não é muito aceita por parte do alto clero e por religiosos tradicionalistas, sobretudo atualmente, porque, segundo ela, a maioria das denominações cristãs parecem viver um fechamento, uma volta ao doutrinalismo extremo.
P: A senhora acredita que Deus seja, ao mesmo tempo, pai e mãe? Por quê?
R: Se Deus disse façamos o homem a nossa imagem e semelhança, e o ser humano é masculino e feminino, então Deus não pode ser outra coisa que não pai e mãe. No texto bíblico nós encontramos trechos aonde o divino é apresentado como pai e como mãe. Por exemplo, no livro do profeta Isaias, no capítulo 49, tem estas palavras: “se uma mãe se esquecer do seu filhinho, eu nunca vou esquecer de ti. Eu te tatuei na palma da minha mão”. Em várias outras partes da Bíblia aparecem trechos como: “fui eu que te gerei”, “fui eu que te dei a luz”, “fui eu que te carreguei no meu ventre”, “não tenha medo”, “confia”. Uma outra coisa que tem na Bíblia, por exemplo, é um apelido que nós damos a divindade: “Deus é um Deus de misericórdia”. A palavra misericórdia vem do hebraico “rehel”, que indica o útero feminino. Então se Deus é um Deus de misericórdia, então ele é um Deus que nos ama com amor de útero, que é claramente um órgão de mulher.
P: Mas Deus é apresentado na Bíblia claramente como Pai. O fato de que na Bíblia aparece um Deus mais masculino é influência do machismo da época em que os textos foram escritos?
R: Acredito que a predominância na representação de um Deus masculino está ligada ao patriarcado. A Antropologia, a própria Arqueologia estão descobrindo que no tempo em que os seres humanos viviam de coleta, havia o “Matriarcado”. Nessa época, tudo era circular. Não teria havido evolução humana no início da história sem solidariedade. Nesse tempo, a representação que se descobriu da divindade era toda feminina. Em figuras e esculturas daquela época são representadas as mamas, os quadris, a vulva, significando que o poder da vida estava na mulher. E não era um poder sobre, mas um poder circular. Com a evolução da agricultura, do pastoreio, da cidade, depois do Estado, aonde o patriarcado vai se afirmar, é o poder do homem sobre. Aí o que acontece? Vai ser apresentada a deusa com o filho no colo, ou a deusa como consorte. E aí aos poucos o homem vai fazer desaparecer a divindade feminina. Porque como pode haver uma estrutura patriarcal e cultuar uma divindade matriarcal? Não pode. O poder tem que se legitimar através da divindade. Então a divindade masculina “assassina” a divindade feminina.
P: E isso naturalmente precede o cristianismo, não?
R: Algo que ilustra bastante isso é o mito babilônico da criação. Existia a Tiamat que era a grande deusa, representada como uma grande serpente. Ela gera um filho que se chama Marduk. Em certo ponto, na guerra pelas divindades, numa luta feroz, Tiamat mata Marduk e a divide ao meio. Com a parte de cima cria o céu, e com a parte debaixo cria o mar. O mito diz o quê? É a morte da divindade feminina, representada pela serpente. De agora em diante vai dominar a divindade masculina que é o sol. Ele pode ter uma consorte que é a lua, a rainha do céu. Ele tem as estrelas, que são o seu exército, mas quem reina absoluto é Marduk. Porque uma estrutura patriarcal não admite uma estrutura que se contrapõe. Por que, por exemplo, o imperador, o faraó, era tido como representante de Deus?
P: A gente consegue perceber esse conflito entre os sagrados masculino e o feminino dentro da Bíblia?
R: No relato de Gêneses isso é muito claro. Por exemplo, no capítulo terceiro, há a presença da serpente, que é um dos símbolos da divindade feminina. Ela é representada como ardilosa, má, pra dizer que ela não presta. Como a divindade feminina se torna secundária, também na estrutura patriarcal a mulher é secundária. O papel dela é de esposa e de mãe. Por quê? É o papel que o patriarcado assinala pra ela. A mãe mata a mulher. A mulher é pra ser esposa, pra ser mãe, pra dar filhos ao marido. Então toda a potencialidade que a mulher tem pra contribuir à sociedade é relegada ao âmbito doméstico.
P: Mas há figuras femininas muito importantes na Bíblia. É possível perceber a força da mulher na sociedade, ainda que nas entrelinhas das escrituras?
R: Vamos pegar como exemplo a figura de Maria. A representação que se faz dela é a Maria do sim, do silêncio, da obediência, da docilidade, Maria a serviço do filho, Maria em função do filho. Quer dizer, a figura verdadeira da mulher Maria é anulada na figura da mãe. Mas a gente não vai olhar, por exemplo, que Maria diz um sim, mas o faz de cabeça pensada. O cântico que Lucas põe na boca dela deixa claro que Maria rebaixa os poderosos de seus tronos, manda os ricos ficarem de mãos vazias. Lucas mostra uma mulher que conhece a realidade do seu tempo e toma posição. Quer dizer, ela não é uma ovelha de presépio. Ela é uma mulher que assume uma maternidade com a clareza de quais são os riscos. A gente minimiza tudo isso. Só que se a gente começa a refletir sob outro ponto de vista, todos esses aspectos aparecem muito mais. Não por acaso na Bíblia há os livros de Ruth, de Ester, de Judite, que são mulheres protagonistas.
P: A senhora acredita que nos dias de hoje essa imagem materna de Deus ainda é silenciada por conta do machismo?
R: Acredito nisso, mas não uso a palavra “machista”. Eu prefiro dizer que estamos numa sociedade em que a maioria das maiores religiões ainda são de cunho patriarcal. O poder sempre tenta se legitimar através do divino. Uma sociedade homofóbica precisa de um Deus homem, por exemplo, pois o transcendente influi sobre o social e o social influi sobre o transcendente. Então o resgate da Deusa é pra resgatar outras maneiras de relações humanas, que acolhem o diferente, o diverso, que pensa num poder circular, não um poder sobre, mas um poder com. Que aceita uma sociedade pluralista. Além de restituir à mulher dignidade e o seu real papel. Mas o patriarcado não fez mal só à mulher, fez mal também ao homem, porque castigou o homem a ser só racional. A exemplo da frase que geralmente é falada para o menino: “homem que é homem não chora”. Homem não pode ser carinhoso, não pode ser afetuoso. Tem que ser o tempo todo duro. Tem que ser sempre uma série de coisas que são os parâmetros do masculino. O patriarcado resumiu a mulher a sentimento e ao homem à racionalidade.
P: Existe uma máxima de que a Bíblia é a Palavra de Deus, por isso intocável. Como é que a senhora vê a Bíblia?
R: Nós temos na Bíblia a experiência de um povo que a partir da sua história fez a descoberta que Deus estava presente. Mas quem escreveu essa história foi o ser humano. E dependendo do seu lugar social ele vai escrever de um modo. A leitura comum da Bíblia mostra uma história sagrada e fatos descontextualizados. É Deus que manda matar ou quem escreve em nome do rei que diz que Deus manda matar pra legitimar sua ação? É Deus que é violento ou somos nós que precisamos de um Deus pra legitimar nossa violência? Aproximação do texto bíblico deve ser feita a partir da história e a consciência de que a Bíblia foi escrita por pessoas. Temos que lutar contra o fundamentalismo e contra uma leitura ao pé da letra, que considera as escrituras intocáveis.
(Diário do Pará)
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