O Problema do Inferno


Por C. S. Lewis
Somente a dor que pode despertar o homem perverso para uma noção de que nem tudo está bem, pode da mesma forma levá-lo a uma rebelião final e sem arrependimento, Foi admitido sempre que o homem possui livre arbítrio e que todas as concessões feitas a ele são, portanto de dois gumes. A partir dessas premissas segue-se diretamente que a obra divina de remir o mundo não pode ter certeza de êxito com respeito a cada alma individual. Alguns não serão remidos. Não existe doutrina no cristianismo que eu gostasse mais de remover do que esta se tivesse esse poder. Mas ela tem o pleno apoio das Escrituras e, especialmente, das próprias palavras de Nosso Senhor; foi sempre mantida pela cristandade, e está fundamentada na razão. Quando jogamos deve haver a possibilidade de perder o jogo. Se a felicidade de uma criatura se acha na auto-rendição, ninguém mais pode realizar essa rendição além dela mesma (embora muitos possam ajudá-la nesse sentido) e ela pode recusar. Eu estaria disposto a pagar qualquer preço para poder dizer sinceramente: “Todos serão salvos”. A minha razão, porém, replica: “Com ou sem o consentimento deles?” Se disser: “sem seu consentimento”, percebo imediatamente uma contradição; como pode o ato supremo e voluntário da auto-rendição ser involuntário? Se disser “com seu consentimento”, minha razão replica, “Como, se não quiserem ceder?”
Os sermões dominicais sobre o inferno, como fazem todos eles, são dirigidos à consciência e à vontade e não à nossa curiosidade intelectual. Quando eles nos despertam para a ação, convencendo-nos de uma terrível possibilidade, terão provavelmente feito tudo o que pretendiam fazer; e se o mundo inteiro fosse composto de cristãos convictos seria desnecessário dizer uma palavra sequer a mais sobre o assunto. Como as coisas se acham, porém, esta doutrina é uma das bases principais para se atacar o cristianismo como sendo bárbaro, e impugnar a bondade de Deus. Dizem- nos que se trata de uma doutrina detestável – e, na verdade, também a detesto do fundo do coração – e somos lembrados das tragédias nas vidas humanas que têm origem nessa crença. Quanto às demais tragédias resultantes do fato de não crermos na mesma, pouco se fala nelas. Por essas razões, e só essas, torna-se necessário discutir o assunto.
O problema não é simplesmente o de um Deus que destina algumas de suas criaturas à ruína final. Seria esse o problema se fôssemos maometanos. O cristianismo, leal como sempre à complexidade do que é real, nos apresenta algo mais intrincado e mais ambíguo – um Deus tão cheio de misericórdia que se torna homem e morre torturado para impedir a ruína final de suas criaturas e que, porém, onde falha esse remédio heróico, parece pouco disposto, ou até mesmo incapaz, de sustar a ruína por um ato de simples poder. Eu afirmei loquazmente pouco atrás que pagaria “qualquer preço” para remover esta doutrina. Mas menti. Eu não poderia pagar um milésimo do preço que Deus já pagou para remover o fato. Este é um problema real: tanta misericórdia e, ainda assim, existe o inferno.
Não vou fazer qualquer tentativa no sentido de demonstrar que a doutrina é tolerável. Não nos enganemos; ela não é tolerável. Penso, entretanto, que pode ser demonstrado que ela é moral, mediante uma crítica das objeções geralmente feitas, ou sentidas, em relação à mesma.
Primeiro, existe uma objeção, em muitas mentes, quanto à idéia de castigo retributivo como tal. Isto foi tratado parcialmente em outro capítulo. Dissemos então que todo castigo se tornaria injusto se as idéias de demérito e retribuição fossem removidas dele; e um núcleo de retidão fosse descoberto no’ próprio íntimo da paixão vingadora, na exigência de que o perverso não permaneça perfeita mente satisfeito com a sua maldade, que ela venha a parecer-lhe o que corretamente parece a outros – um mal. Eu disse que a dor finca a bandeira da verdade na fortaleza rebelde. Estávamos então discutindo o sofrimento que poderia ainda levar ao arrependimento. E se isso não acontecer – se nenhuma outra vitória além de enterrar a bandeira no solo jamais tenha lugar? Vamos ser honestos conosco mesmos. Imagine um homem que tenha ficado rico ou poderoso através de uma série contínua de traições e crueldades, explorando com fins puramente egoístas os sentimentos nobres de suas vítimas, rindo de sua ingenuidade; que, tendo alcançado assim o sucesso, faz uso dele para sua própria gratificação, cobiça e ódio e finalmente perde o último vestígio de honra entre malfeitores, traindo seus cúmplices e zombando de seus derradeiros momentos de desilusão desnorteada.
Suponhamos, ainda, que ele faça tudo isso, não atormentado pelo remorso ou mesmo apreensão, mas comendo como um adolescente e dormindo como uma criança saudável – um homem alegre, sadio, sem um cuidado no mundo. Confiante até o fim de que só ele encontrou a resposta para o enigma da vida, que Deus e o homem são tolos de quem se aproveitou, que seu modo de viver é completamente satisfatório, cheio de sucesso, inatacável. Suponhamos que ele não venha a converter-se, que destino no mundo eterno você consideraria adequado para ele? Será que pode realmente desejar que um indivíduo desse tipo, permanecendo como é (e ele deve ter capacidade para tanto se tiver livre-arbítrio), seja confirmado para sempre na sua felicidade presente – deveria ele continuar, por toda eternidade, a manter-se perfeitamente convencido de que a última risada será sua?
Você não é movido pelo desejo de ver sofrer essa miserável criatura, mas por uma exigência verdadeiramente ética de que, cedo ou tarde, o direito deve vencer, a bandeira deve ser plantada nessa alma tremendamente rebelde, mesmo que não seja seguida de uma vitória melhor e mais ampla. A própria misericórdia dificilmente poderia desejar que um indivíduo assim continue eternamente satisfeito em sua deplorável ilusão. Tomás de Aquino falou a respeito do sofrimento o mesmo que Aristóteles falou da vergonha: tratava-se de algo que não era bom em si mesmo, mas que poderia apresentar certos aspectos bons em determinadas circunstâncias. Isto é, se o mal está presente, a dor ao reconhecer o mal, sendo uma espécie de conhecimento, é relativamente boa; pois a alternativa seria que a alma ignorasse o mal, ou ignorasse que o mal é contrário à sua natureza, “sendo ambas”, diz o filósofo, “manifestamente prejudiciais”. E penso que, embora tremendo, concordamos.
A exigência de que Deus deva perdoar tal homem enquanto permaneça como é, está baseada numa confusão entre tolerar e perdoar. Tolerar um mal é simplesmente ignorá-lo, tratá-lo como se fosse um bem. Mas o perdão precisa ser tanto aceito como oferecido caso deva ser completo: e a pessoa que não admite culpa não pode aceitar perdão.
Mas, naturalmente, embora Nosso Senhor fale com freqüência do inferno como de uma sentença infligida por um tribunal, Ele também diz em outro ponto que o juízo consiste no próprio fato de que os homens preferem as trevas à luz, e que sua “palavra” e não Ele julga os homens (Jo 3:19; 12:48). Temos, portanto, liberdade – desde que os dois conceitos, a longo prazo, significam a mesma coisa – de pensar na perdição deste perverso, não como uma sentença imposta a ele, mas como o simples fato de ele ser o que é. A característica das almas perdidas é “sua rejeição de tudo que não seja simplesmente elas mesmas”. Nosso egoísta imaginário tentou transformar tudo o que encontra em uma província ou apêndice do EU. A preferência pelo outro, isto é, a própria capacidade de gozar do bem, é apagada nele exceto até o ponto em que seu corpo ainda o arrasta a um contato rudimentar com o mundo exterior. A morte remove este último contato. Ele alcança o que deseja – viver inteiramente para si mesmo e tirar o melhor proveito do que descobre em seu interior. E o que encontra ali é o inferno.
Outra objeção se prende à aparente desproporção entre a danação eterna e o pecado transitório. Consiste em dizer que a morte não deveria ser final, que deveria haver uma segunda oportunidade. Acredito que se um milhão de oportunidades tivessem qualquer probabilidade de ajudar, elas seriam dadas. Mas um professor sempre sabe, mesmo quando os alunos e os pais não sabem, que é realmente inútil fazer um estudante repetir uma determinada prova. O fim deve chegar um dia, e não é necessária uma fé muito forte para crer que a onisciência sabe quando deve ser esse dia.
Uma terceira objeção se concentra na terrível intensidade das penas do inferno como sugerido pela arte medieval e, sem dúvida, por algumas passagens das Escrituras. Von Hügel nos adverte aqui para não confundirmos a doutrina em si com as imagens mediante as quais é transmitida. Nosso Senhor fala do inferno sob três símbolos: primeiro, o do castigo (“castigo eterno” Mt 25:46); segundo, da destruição (“temam apenas a Deus, que pode destruir no inferno a alma e o corpo juntos” Mt 10:28); e terceiro, da privação, exclusão e expulsão para as “trevas exteriores”, como nas parábolas do homem que não tinha as roupas do casamento ou a das virgens sábias e das tolas. A imagem predominante do fogo é significativa porque combina as noções de tormento e destruição.
É, porém, praticamente certo que todas essas expressões têm na verdade a intenção de sugerir algo indiscutivelmente horrível, e qualquer interpretação que não enfrente esse fato estará, conforme receio, errada desde o princípio. Não é, entretanto, necessário concentrar-se nas imagens de tortura, excluindo as que sugerem destruição e privação. O que pode ser então aquilo de que as três imagens são símbolo? A destruição, podemos naturalmente presumir, significa a eliminação ou aniquilação dos destruídos. E as pessoas falam com freqüência como se a “aniquilação” de uma alma fosse possível. Em nossa experiência, porém, a destruição de uma coisa significa a emergência de outra. Queime um pedaço de madeira e terá gases, calor e cinzas. Ter sido um pedaço de madeira significa agora ser essas três coisas. Se a alma pode ser destruída, não haverá um estado de ter sido uma alma humana? E não é esse, talvez, o estado que é igualmente bem descrito como tormento, destruição e privação? Você estará lembrado de que, na parábola, os salvos vão para um lugar preparado para eles, enquanto os perdidos vão para um lugar que não foi absolutamente feito para homens (Mt 25.24,41).
Entrar no céu é tornar-se mais humano do que jamais alguém o foi na terra; entrar no inferno é ser banido da humanidade. O que é lançado (ou se lança) no inferno não é um homem: são “refugos”. Ser um homem completo significa ter as paixões obedientes à vontade e essa vontade oferecida a Deus: ter sido um homem – ser um ex-homem ou um “fantasma perdido” – iria presumivelmente significar consistir de uma vontade completamente voltada para o Eu e paixões não controladas pela vontade. Torna-se, naturalmente, impossível imaginar com o que a consciência de tal criatura – já então um agregado indefinido de pecados mutuamente antagônicos em lugar de um pecador – poderia comparar-se.
Pode haver grande parte de verdade no ditado: “o inferno é inferno, não de seu próprio ponto de vista, mas do ponto de vista celestial”. Não acredito que isto interprete mal a severidade das palavras de Nosso Senhor.
Somente aos condenados é que seu destino poderia parecer menos do que insuportável. E deve ser admitido que, nestes últimos capítulos, à medida que pensamos na eternidade, as categorias de dor e prazer, que nos prenderam por tanto tempo, começam a retroceder, enquanto bens e males mais vastos surgem no horizonte. Nem a dor nem o prazer como tais têm a última palavra. Mesmo se fosse possível que a experiência (se pode ser chamada assim) dos perdidos não contivesse dor, mas muito prazer; ainda assim, esse prazer negro seria de um tipo tal que faria qualquer alma, ainda não condenada, voar para as suas orações num terror de pesadelo: mesmo que houvesse sofrimentos no céu, todos os que têm entendimento os desejariam.
Uma quarta objeção é que nenhum homem caridoso poderia considerar-se abençoado no céu enquanto soubesse que uma única alma continuasse ainda no inferno; e se for assim, somos então mais misericordiosos que Deus? Por trás dessa objeção existe uma imagem mental de céu e inferno coexistindo numa época unilinear como coexistem as histórias da Inglaterra e América: dessa forma a cada momento os bem-aventurados poderiam dizer: “As misérias do inferno estão agora continuando”. Mas eu noto que Nosso Senhor, embora enfatizando os terrores do inferno com grande severidade, no geral, não destaca a idéia de duração, mas de finalidade.
A entrega ao fogo destruidor é geralmente tratada como o fim da história e não como o começo de outra nova. Não podemos duvidar que a alma perdida esteja eternamente fixada em sua atitude diabólica; mas se esta fixidez eterna implica numa duração sem fim – ou que dure mesmo – não podemos dizer.
Sabemos muito mais sobre o céu do que sobre o inferno, pois o céu é o lar da humanidade e, portanto contém tudo o que está implícito numa vida humana glorificada: mas o inferno não foi feito para homens. Ele não é de forma alguma paralelo ao céu, mas a “escuridão lá fora”, a borda externa em que o ser se desvanece no nada.
Finalmente, é objetado que a perda final de uma única alma significa a derrota da onipotência. E assim é. Ao criar seres com livre-arbítrio, a onipotência desde o início se submete à possibilidade de tal fracasso. O que você chama de derrota, eu chamo de milagre: pois, fazer coisas que não são Ele mesmo, e tornar-se assim, num certo sentido, capaz de sofrer resistência por parte das obras de suas próprias mãos, é o mais surpreendente e inconcebível dos feitos que atribuímos à divindade. Acredito realmente que os perdidos são, de certa forma, rebeldes bem sucedidos até o fim; que as portas do inferno são fechadas por dentro. Não quero dizer que os fantasmas não desejem sair do inferno, da maneira vaga como uma pessoa invejosa “deseja” ser feliz: mas eles certamente não querem nem sequer os primeiros estágios preliminares daquele auto-abandono através do qual a alma pode alcançar qualquer bem.
Eles gozarão para sempre da horrível liberdade que exigiram, e são, portanto, auto-escravizados, da mesma maneira que os justos, para sempre submissos à obediência, se tornam através de toda eternidade cada vez mais livres.
A longo prazo, a resposta a todos os que se opõem à doutrina do inferno é, em si mesma, uma pergunta: “O que você está querendo que Deus faça?” Apagar os pecados cometidos por eles no passado e permitir-lhes um novo começo, alisando toda dificuldade e oferecendo toda ajuda milagrosa? Mas Ele fez isso, no Calvário. Perdoá-los? Não podem ser perdoados. Abandoná-los? Sim, tenho medo de que é justamente isso que Ele faz.
Mais uma advertência e encerro o assunto. A fim de despertar as mentes modernas para uma compreensão dos pontos focalizados, ousei introduzir neste capítulo a figura do homem mau que facilmente percebemos ser verdadeiramente mau. Mas quando essa figura tiver feito a sua parte, quanto mais cedo for esquecida melhor. Em todas as discussões sobre o inferno, devemos manter firmemente diante dos olhos a possível condenação, não a de nossos inimigos nem a de nossos amigos (desde que ambas perturbam a razão), mas a nossa própria danação. Este capítulo não trata de sua esposa ou de seu filho, não fala de Nero ou de Judas Iscariotes; ele trata de você e de mim.
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