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NOTA DO AUTOR

Fazia frio naquela manhã ensolarada de primavera de 1988, quando eu e um recém conhecido pastor americano nos dirigimos a Rainbow Christian Supplies, no centro de Great Falls, uma cidade de Montana, Estados Unidos. Meu encanto em pisar pela primeira vez numa livraria evangélica americana não pode ser disfarçado; entretanto, o objetivo inicial de concentrar minhas compras na seção de música gospel foi imediatamente mudado em face da abundância literária que ali encontrei. Jamais havia presenciado qualquer coisa semelhante! Títulos e títulos dos mais variados autores sobre os temas mais impensáveis disputavam minha atenção. Ao passar lenta e repetidamente por aquelas prateleiras, deparei com um livro que, embora pequeno e quase escondido por outros volumes, fez-me esquecer dos demais atrativos da loja. The Search for the Twelve Apostles (Em Busca dos Doze Apóstolos), do até então por mim desconhecido William Steuart McBirnie, era o único título disponível sobre um assunto que há muito acendia meu interesse. O agradável folhear daquelas páginas deu-me a certeza de ter, finalmente, encontrado algo que poderia responder às indagações que há muito nutria com respeito ao destino dos discípulos de Jesus. Ao retornar ao Brasil, um mês depois, decidi começar alguns estudos sobre a matéria, já que me considerava privilegiado por poder recorrer a esta importante fonte de consulta. Esses planos, infelizmente, tiveram de ser interrompidos ainda em sua fase embrionária, para dar lugar a outras atividades prioritárias naquele momento. Contudo, em fins de outubro de 1994, , ao assumir a direção do culto de estudos bíblicos da Igreja Batista Nova Vida, em Guaratinguetá (SP), pensei em reiniciar as investigações sobre o tema e ministrá-lo em tempo oportuno. Poucas semanas após a retomada do projeto, percebi que o assunto, por seu pesado conteúdo histórico, tornaria-se por demais "indigesto" para ser apresentado a um público tão heterogêneo como o daquela Igreja. Ao mesmo tempo, ocorreu-me estar de posse daquilo que poderia se tornar o começo de um ousado projeto literário de investigação sobre a carreira bíblica e extra-bíblica dos apóstolos de Jesus. Deste modo surgia aquilo que chamei, a princípio, Doze Homens, Uma Missão. Hoje, quase onze anos depois, sinto-me grato a Deus por poder encerrar esta pequena contribuição ao universo literário cristão de meu país. Devo confessar, entretanto, que por vezes pensei seriamente em desistir. A inexperiência com o exercício
da autodisciplina — indispensável para quem se envolve em trabalhos extensos como este — e a quase inexistência de fontes de pesquisa sobre o tema em língua portuguesa ocasionalmente deixaram-me abatido. Fortaleceu-me, por outro lado, a certeza de que esta obra preencheria uma importante lacuna na literatura cristã brasileira e conferiria aos seus leitores o raro prazer de viajar através das muitas tradições que relatam — as vezes fantasiosamente, é verdade — alguns feitos dos doze homens aos quais devemos as raízes de nossa fé. Motivou-me também o desejo de contribuir para a fragmentação dos mitos que a tradição eclesiástica gradativamente erigiu sobre eles — em especial sobre os mais destacados — e que tanto tem contribuído para desfocar seu verdadeiro perfil. Portanto, nas páginas que cabem a cada um dos doze, o leitor não os encontrará apresentados como heróis infalíveis ou "santarrÕes" inabaláveis, pois se assim os retratasse, não estaria sendo honesto com o propósito que assumi ao iniciar essa pesquisa. Nesses dias em que presencio jubiloso o florescimento da fé cristã no Brasil, cresce proporcionalmente em mim a preocupação com a apostilicidade daquilo que vejo ser propalado aqui e acolá como doutrina cristã. A história eclesiástica nos tem legado alguns exemplos de como o crescimento explosivo da Igreja, por vezes, ocorre em detrimento da pureza de sua doutrina original. Preocupa-me também constatar que os mecanismos de aferição daquilo que proclamamos de nossos púlpitos — contagiados que estão por um secularismo ameaçador — parecem cada vez mais confusos e distantes da simplicidade dos longínquos tempos de Simão Pedro e seus companheiros. Por outro lado, reconheço que o resgate dos valores históricos importantes e tangentes de nossa fé não é uma tarefa fácil, especialmente nesses confusos dias de pós-modernidade. Muitos cristãos "modernos" infelizmente têm espelhado a superficialidade e a trivialidade com que o cidadão atual se relaciona com a realidade que o cerca. De modo crescente, uma fé utilitarista e hedonista tem ocupado, nas mentes e corações de muitos fiéis, o espaço outrora preenchido pelas preocupações com a historicidade e o conteúdo doutrinário daquilo que nós cristãos professamos crer. Diante disto, creio que a familiarização com a carreira dos doze vocacionados de Cristo — dentro das limitações históricas que nos são impostas — pode significar para o crente sincero um conhecimento mais significativo dos valores, das ênfases, das prioridades e da estratégia com os quais estes santos lançaram o chamado fundamento dos apóstolos, do qual Jesus é a pedra angular e sobre o qual estamos todos edificados (Ef 2.20). Essa preocupação, diga-se de passagem, constituiu parte crucial daquilo que me compeliu a elaborar Doze Homens, Uma Missão.
Confesso, ademais, que não pretendi solucionar todos os mistérios milenares que envolvem a carreira dos discípulos de Cristo. Na verdade, estou seguro de que tal tarefa seria impossível mesmo ao mais capacitado e bem servido dos pesquisadores. Afinal, uma parcela significativa dos empreendimentos desses santos - como o leitor logo perceberá - foi desafortunadamente sepultada por um silêncio histórico que não nos legou senão conjecturas sobre lendas - muitas delas inconsistentes - de suas missões pelo mundo antigo. Nessas narrativas, com freqüência, a fiel descrição das realizações apostólicas ficou comprometida ao ceder lugar à fantasia e ao misticismo do escritor medieval, em sua sede de associar os discípulos de Cristo às origens de muitas igrejas ao redor da Europa, Oriente Médio e norte da África. Finalmente, e a despeito de todas essas dificuldades, meu desejo preponderante é de que estas páginas sejam um convite a que o leitor reflita, de modo particular, sobre a dedicação com que esse homens valorosos empreenderam as missões através das quais a fé cristã — atravessando os tormentos da história - chegou até nós, bem como sua disposição de selar com a vida o testemunho do evangelho que anunciaram não só em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da Terra (At 1.8)! Este trabalho é, portanto, um humilde tributo ao esforço, ao desprendimento à sabedoria, à fidelidade dos quais o mundo certamente não era digno (Hb 11.38).

Aramis C. DeBarros

São José dos Campos, SP, Brasil aos 12 de Junho do ano de N. S. Jesus Cristo 1999
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