quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Será que vivemos num mundo de mais respostas que perguntas?

Fonte:









Rabino Adin Steinsaltz, autor de Talmud Essencial – Editora Sêfer.

Qual a importância de observar e questionar a realidade? A jornalista Leila Sterenberg, do programa Milênio – Globo News, entrevistou Adin Steinsaltz, cientista que virou rabino e, após 45 anos de trabalho, terminou a tradução do Talmud.

Será que vivemos num mundo de mais respostas do que perguntas? As verdades instantâneas em tempo real aguçam ou aplacam o desejo de
reflexão? Algumas criações humanas têm o poder de atiçar o questionamento. Uma das mais antigas é o Talmud, o livro escrito há cerca de 1500 anos reunindo preceitos e discussões travadas pelos chamados sábios da religião de Moisés, Abraão e Davi. Atualizar o Talmud para o hebraico moderno e, a partir daí, para o inglês e outras línguas contemporâneas, era algo visto como heresia por alguns ultraortodoxos. Mas foi nessa aventura que se lançou o rabino israelense Adin Steinsaltz. Nascido em Jerusalém numa família de esquerda não religiosa, Steinsaltz começou a sua vida intelectual pela ciência antes de se tornar rabino. Hoje é considerado o maior especialista em leis antigas desde Maimônides, grande pensador da Espanha medieval. Conhecedor de História da Arte, fluente em vários idiomas, é o que se pode definir como homem renascentista, dono de cultura que passa por diferentes áreas do conhecimento. Mordaz e com muita presença de espírito, de passagem pelo Brasil, ele conversou com o Milênio.

Leila Sterenberg — Rabino Steinsaltz, as traduções são mais do que uma mera versão de um livro em outra língua, porque elas podem ser portas para um novo universo. Após mais de 45 anos de trabalho duro, o senhor concluiu a primeira tradução do Talmud para o hebraico moderno. Que transformações o senhor espera como resultado disso?


Adin Steinsaltz — A tradução não é uma mera tradução. Quando se fala da “qualidade objetiva da tradução precisa”, fala-se de um mito, ou pior. Toda tradução é um comentário. Algumas são um bom comentário, outras são um comentário ruim, mas são sempre um comentário. Isso é uma coisa. Agora, o que eu fiz? Eu tentei abrir um portão, e eu assim defino. Mas o que eu basicamente tento fazer é abrir um portão e construir pontes. Acho que a parte da língua é a menor parte. As diferenças entre o aramaico e o hebraico talvez sejam menores do que aquelas entre o espanhol e o português. São realmente línguas irmãs. Então não foi tão difícil. O maior problema foi o estilo. Nenhum outro livro foi escrito no mesmo estilo. Nenhum outro livro na literatura judaica ou na literatura germânica. Eu me considero alguém que já leu muito, mas nunca vi um livro como esse. Não estou dizendo que é melhor, apenas dizendo como ele é. O livro é muito diferente, então, para entendê-lo, entrar no seu espírito, meu trabalho foi tentar abrir um portão. Eu tive que falar a linguagem da pessoa que o lê, tive que entendê-la. Tive que entender o que ele entende e o que ele não entende. Esse foi meu trabalho. O que meu trabalho fez? Ele fez uma grande revolução? Veja, mesmo Lutero… Algumas das mudanças introduzidas por Lutero não ocorreram apenas pela tradução. Eles a complementaram com armas pesadas. Eu não tenho armas pesadas então…

Leila Sterenberg — O senhor tem 5 mil páginas.


Adin Steinsaltz — Acho que isso faz uma diferença.

Leila Sterenberg — Eu vou citar o que o senhor disse em uma entrevista: “O Talmud como livro, tem uma qualidade enorme de que o mundo precisa hoje mais do que qualquer coisa: sanidade.”


Adin Steinsaltz — O que quis dizer ao falar sobre sanidade? Veja, nós vivemos em um mundo no qual tudo é permitido, no qual cada vez mais coisas são permitidas, mas isso não quer dizer que as pessoas sejam cada vez mais felizes ou que elas façam o que devem fazer. De várias maneiras, por vários motivos, em um número imenso de coisas. Então, basicamente, o que o mundo precisa é de mudanças bruscas. Vivemos de altos e baixos. Na vida pessoal, no que se trata de uma nação, na política em geral. Nós mudamos o tempo todo. Isso é uma loucura. E essa loucura não é apenas uma loucura porque não é bom de ver, ela é extremamente perigosa, porque, hoje, como alguém escreveu, é como se colocássemos uma arma nas mãos de um garoto de cinco anos. Nós temos mais poder do que bom senso. Nós temos uma quantidade enorme de poder, então o que precisamos é de sanidade. O Talmud não é um livro que prega a sanidade, mas ele cria sanidade. A sanidade é uma das coisas mais difíceis de definir. É mais fácil definir a loucura. Mas a sanidade é a capacidade de manter coisas diferentes em certo estado de equilíbrio, mas sem deixá-las imutáveis para sempre.

Leila Sterenberg — O senhor pode nos dar um exemplo de por que o Talmud dá sanidade? Tudo bem, há questões legais que foram destrinchadas por rabinos mil anos atrás, mas…


Adin Steinsaltz — As questões legais são uma parte, mas não é isso. Eu falo de estilo. Em primeiro lugar, uma das características do Talmud é que ele se baseia no diálogo, ele se baseia na troca. Ele é diferente dos outros livros. Ele não diz: “Eu vou lhe contar uma coisa”. Ele diz: “Vamos discutir este assunto.” E a discussão pode ser dura mais é uma discussão. Portanto, há sempre um intercâmbio, há sempre um diálogo, há dialética dentro do livro. E a dialética é parte da construção dele. Não é possível ler mais de três linhas do Talmud sem entrar em um pensamento dialético. E, quando você é criado lendo esses escritos, ao ver alguma coisa, você se pergunta: “Qual é a pergunta que devo fazer sobre isto?”

Leila Sterenberg — Esse constante estímulo a pensar e a questionar do Talmud me lembra o pensamento científico. A ciência moderna é essencialmente talmúdica?


Adin Steinsaltz — A ciência é dialética, de certo modo. Se você já entrevistou algum cientista, o que deve ter acontecido, viu que eles têm a boa tendência, ou não tão boa assim, de se tornar dogmáticos. O cientista pode ser ateu, mas ele é um fanático. Alguns deles reúnem essas duas coisas. Então isso é uma coisa. Mas a ciência funciona porque se limita a um grupo pequeno de assuntos. Não há ciência com letra maiúscula.

Leila Sterenberg — Mas alguns cientistas lidam com questões maiores…


Adin Steinsaltz — Mas as grandes questões… Alguns dos cientistas que lidam com as grandes questões são acusados pelos colegas de praticar filosofia. Minha formação é em Química Física e Matemática, não em Ciências Humanas. Eu realmente gosto deles, eu os respeito, e deixe-me dizer que ter algo em um tubo de ensaio e trabalhar com isso é muito mais agradável, para mim, do que falar de filosofia, mas a ciência faz parte da insanidade. É parte da insanidade quando se supõe que as coisas são mais do que elas são. Veja o que se pergunta a um cientista. Perguntam-se coisas que, se você for sincero, responderá: “Como, meu Deus, eu vou saber?” Se você me perguntar qual é o destino da humanidade, eu não saberei responder. Se me perguntar o que acontecerá daqui a dois dias, como vou saber? Eu posso lhe responder as poucas coisas que sei. Eu não tento fazer da ciência uma espécie de deus pagão, eu estou fazendo bem à ciência, porque é isso que ela é. Quando o Sol é um deus, é um deus perigoso, quando o Sol é uma estrela no céu, é muito mais fácil lidar com ele.

Leila Sterenberg — Então, passando da ciência para a lei… O Talmud reúne discussões legais e religiosas que milhares de rabinos tiveram ao longo dos séculos e que foram compiladas há 1.500 anos. Isso foi há muito tempo, e noções como crime, justiça, liberdade, eram diferentes, não eram?


Adin Steinsaltz — No passado… Você acha que eu acredito que, no passado, não se buscava dinheiro, sexo e poder? Eu não só seria contrário à História, como seria um tolo se dissesse isso. Mas, muitos anos atrás, eu escrevi uma pequena peça. E ficou boa.

Leila Sterenberg — Um homem versátil. Cientista, escritor, rabino…


Adin Steinsaltz — Eu queria ser artista, mas não tive tempo para isso. Eu costumava fazer esculturas quando jovem. Mas, voltando à peça, eu escrevi sobre o faraó do Egito, e eu o retratei como uma pessoa moderna. E eu disse, no prefácio: “Você acha que, em apenas 3 ou 4 mil anos, a natureza mudou tanto?” Quais são as grandes questões? Nós temos todo tipo de certezas, mas elas são, basicamente, as mesmas certezas. Nós somos feitos, mais ou menos, da mesma matéria. Não temos apenas o mesmo nariz, mas temos também o mesmo modo de respirar, temos a mesma maneira de nos movimentarmos. Se tivessem se passado 300 mil anos, poderíamos dizer: “Tudo bem, algo pode ter mudado.” Mas em 1.500 anos é muito pouco tempo, porque as questões básicas, as coisas básicas, não estão muito diferentes. Os problemas são os mesmos. Por exemplo, você lida com problemas. É claro que eles se tornam diferentes, e as decisões podem ser diferentes. E cada país, cada sistema de lei ou religião também tem respostas diferentes. Mas a questão não é copiar o conjunto de ideias de alguém. Como podemos entender esses diferentes conjuntos? Como os entendemos? O que significam para nós? Eu nunca tive a oportunidade, mas vamos supor que eu encontre um grande sábio do planeta Marte, que tenha vindo nos visitar. Eu acho que ainda conseguiria conversar com ele.

Leila Sterenberg — Bem, daqui a mil anos, quando um historiador analisar a nossa época, o que chamamos de “civilização ocidental”, ele verá uma civilização judaico-cristã? O senhor acredita que há uma civilização judaico-cristã ou o senhor vê alguns diferentes ramos ou vários ramos?


Adin Steinsaltz — O que está acontecendo no mundo de hoje, de maneira geral, é que ele não é judaico-cristão. O que vivemos não é um ambiente judaico, não um ambiente cristão, nem mesmo — sejamos sinceros — um ambiente muçulmano. Nós estamos vivendo uma grande paganização do mundo. Eu vejo não só as imagens, mas os antigos deuses. Os deuses gregos, os deuses pré-helênicos… Eu os vejo emergindo, entende? Antigamente, havia um deus chamado Baal. Ele é mencionado no Novo Testamento, e a tradição hebraica o identifica como Mamom, dinheiro. Veja esse grande deus. Ele não é maior do que qualquer santo de qualquer igreja? Veja a deusa. Na linguagem antiga, ela era chamada de Astarte. É Vênus. O sexo, o sexo libidinoso. Às vezes, vemos coisas usadas apenas para seduzir. Mas ela não está se tornando muito maior que todas as Marias? E a que eu chamo de “terceira deusa”. Ela era grega e era muito famosa: Calíope. Era a deusa do alarde. A autopromoção, fama. A fama só pela fama. Ser famoso só para ser famoso.

Leila Sterenberg — O que o senhor acha da internet, em especial com tablets e smartphones? Eles são muito mais interativos. Não somos mais observadores, somos usuários, somos usuários, e temos que pensar, que tomar decisões.


Adin Steinsaltz — É uma ferramenta muito poderosa. E, como muitas coisas poderosas… Não é o mesmo que a bomba atômica, mas ela ainda tem um grande poder. E, mais uma vez, o grande problema é: ela está nas mãos certas? Eu não vou dizer que isso tem que parar, pois não podemos fazer isso. Mas eu pergunto se não é… Em vez de ter uma enciclopédia, você tem a Wikipédia. Isso é um avanço? Quando eu quero uma informação, eu a consigo com muito mais facilidade na internet. Com toda certeza. Mas eu estou recebendo uma informação melhor?

Leila Sterenberg — Muita informação não significa conhecimento; conhecimento não significa compreensão; e compreensão não significa sabedoria. Nós estamos mais informados, mas talvez, menos sábios?


Adin Steinsaltz — Uma das maneiras de espalhar a ignorância não é contar mentiras às pessoas, é dar a elas informações demais. Informação demais pode ser até pior do que ter pouca informação. Eu não consigo absorver a informação, não consigo ter acesso a ela, não consigo usá-la. Então, qual é o resultado? É que você se dispersa, entende? Eu vi aqui, neste país, um país tão lindo de ver, que algumas gotas de chuva sempre são bem-vindas, mas 400 milímetros de chuva não são muito convenientes, 2.500 milímetros de chuva, e há países que têm isso… Imagine 2.500 milímetros de chuva em 24 horas no Rio de Janeiro. Que nome você dá a isso? Um desastre. Mas a chuva é boa. A chuva é boa, não é? Cada gota é boa. A quantidade de chuva acima de um dado limite é um desastre. E o que podemos fazer sobre isso? Você quer saber sobre todos os assuntos. Você pode entrar agora na internet e tentar encontrá-los. E você verá artigos e mais artigos, em todas as línguas. Depois de um tempo, você não os lerá, e eles não lhe trarão nenhum informação. Mais uma vez, voltamos ao problema básico de avaliar o que se tem, separar as coisas e lidar com o que se tem. A pergunta é: quem pode separar as coisas?

Leila Sterenberg — O senhor é pessimista? Em uma palestra na Academia de Ciências Sociais de Xangai, o senhor disse que há algumas semelhanças entre os provérbios do Talmud e o Livro do Tao. Vou resumir de maneira muito simples, mas o Tao diz que as coisas contêm o germe do seu oposto ou de sua não existência, o que se pode entender como de sua destruição, talvez. Ou seja, a humanidade contém o germe de sua destruição?


Adin Steinsaltz — Veja, se eu acreditasse que o mundo do futuro se tornará necessariamente pior, pior e pior, eu provavelmente não existiria mais. Não faria sentido. Então, qualquer pessoa, mesmo as que falam em um programa de televisão, tem que ser otimi

sta. Eu imagino que você também tenha que ser otimista. Você encontra todo tipo de gente e às vezes espera que um dos tolos que entrevista — eu e outras pessoas — diga algo que pode salvar o mundo. Você não tem essa expectativa? Então, é isso: todos nós tentamos, e, lá no fundo, todos nós acreditamos que, de algum modo, de alguma forma, ainda há esperança. Sabe, uma vez, me perguntaram qual era a posição do judaísmo na divisão entre Leibniz e Voltaire. Leibniz disse que o nosso mundo é o melhor dos mundos possíveis. E, Voltaire, por sua vez, concluiu que nosso mundo é o pior dos mundos possíveis. E como o judaísmo se posiciona quanto a isso? É uma boa pergunta. Eu respondi que nós vivemos no pior dos mundos possíveis e desejamos que ainda haja esperança.
Entrevista concedida pelo rabino israelense Adin Steinsaltz, autor de Talmud Essencial – Editora Sêfer, à jornalista Leila Sterenberg, para o programa Milênio, da Globo News. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura Globo News às segundas-feiras.

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

A Batalha Mística da Grã-Bretanha na Segunda Guerra Mundial

Fonte:  


Guerra e Magia têm sido companheiros de cama regulares desde o início dos tempos. Durante conflitos e em tempos de turbulência, vale tudo para superar os inimigos e derrotá-los. E se magia constitui uma espécie de trunfo ou arma secreta capaz de assegurar a vitória, com certeza valia a pena explorá-la. 

Neste septuagésimo sétimo aniversário da desesperada Batalha da Grã-Bretanha, este artigo analisa as formas como a Magia foi usada neste dramático momento da Segunda Guerra Mundial. Ao lado da Batalha Aérea que estava sendo travada nos céus durante o verão e o outono de 1940, houve outra batalha sendo disputada simultaneamente - uma Batalha Mística. Vamos ser claros - estamos falando aqui de "magia" no sentido oculto, não de "mágica", não há nada de conjuração ou ilusionismo, e sim rituais místicos e tradições ocultas. 

A Grã-Bretanha tem uma longa tradição de recorrer a magia quando os inimigos se apresentam e ameaçam a segurança de suas Ilhas. No início da Era Moderna, em Friar Bacon, um feiticeiro inglês teria desafiado um oponente saxônico para um duelo de magia no qual sua vitória garantiu a posse das ilhas. O lendário Rei Arthur teve suas mais importantes vitórias garantidas pelo seu fiel feiticeiro Merlin, contando ainda com o poder da espada mágica Excalibur. Saindo dos Mitos e investigando a realidade, temos casos de elementos sobrenaturais auxiliando governantes britânicos em vários momentos. 

Em 1588 o matemático, conselheiro e espião da Rainha Elizabeth I, o misterioso Doutor John Dee, supostamente conjurou um enorme vendaval para destruir a Invencível Armada e obrigá-la a retornar arruinada para a Espanha. Em 1807, a iminente invasão de Napoleão foi, segundo lendas, revertida por rituais místicos realizados por bruxas do Sul da Ilha Britânica que afetaram psicologicamente os franceses e os encheram de receio de atravessar o mar. A Primeira Guerra Mundial viu os Anjos de Mons, supostas figuras angelicais intervindo a favor dos britânicos e em um nível pessoal, muitos soldados acreditavam que carregar talismãs caseiros serviria para prevenir ferimentos e impedir a morte no campo de batalha.

A Segunda Guerra Mundial estava destinada a ser lutada em muitos níveis. Acima e além das maneiras conhecidas e testadas que envolviam disparar algum tipo de projétil contra o inimigo, ela viu o uso da manipulação da psicologia chegar a novas alturas como um meio de desestabilizar o outro lado. O astrólogo Louis de Wohl foi empregado pelos serviços de inteligência britânicos, cuja equipe também incluía Dennis Wheatley e Ian Fleming. Sua função era alimentar a desinformação e contrariar as previsões astrológicas feitas a respeito de Hitler. Segundo os astrólogos nazistas, os alemães estavam fadados a conquistar a Europa inteira. Com base nessas previsões, os nazistas lançaram milhares de panfletos sobre a Inglaterra, alegando que não fazia sentido tentar impedir a invasão prevista pelos astros. Imediatamente, os astrólogos britânicos fizeram suas próprias previsões que contrariavam os alemães. 

Mas os ocultistas britânicos foram muito além disso. Eles se envolveram usando métodos ainda menos ortodoxos para apoiar o esforço de guerra. 


AUTO-DEFESA PSÍQUICA

Uma figura tem sido associada mais do que qualquer outra a Batalha Mística da Britânia: a ocultista e escritora Dion Fortune. Nascida como Violet Mary Firth em 1890 em uma Família de Cientistas Cristãos no Norte de Gales, ela teve experiências com visões e mediunidade desde a sua infância, acreditando ser a reencarnação de uma sacerdotisa de Atlântida. Além disso, Dion acreditava ser capaz de canalizar psiquicamente a presença de Socrates e Merlin em sessões espíritas. Ela começou a direcionar suas experiências psíquicas de modo mais coerente após se filiar a famosa Sociedade Teosófica. Depois da Grande Guerra, ela se juntou a Stella Matutina, uma semente nascida da Sociedade Hermética da Golden Dawn, um grupo de ocultistas que por algum tempo congregou sob uma mesma Ordem Aleister CrowleyMacGregor MathersWB Yeats e muitos outros expoentes, que incluem a própria Dion. 

O nome místico "Dion Fortune" pelo qual ela se tornou conhecida, era composto pelas iniciais de seu nome código dos tempos de Golden Dawn – "Deo, Non Fortuna", que pode ser traduzido como "Não pela sorte, mas através de Deus" e deriva de um lema em latim de sua Família.

Como parece ter acontecido frequentemente ao longo da história da Golden Dawn, disputas internas levaram Fortune a abandonar a Stella Matutina e criar seu próprio grupo, com uma forte ênfase no Cristianismo Esotérico e com uma roupagem menos formal. Ela realizava experimentos com meditação e magia ritualística assimilando elementos dos Mitos Arthurianos (Rei Arthur) sobretudo as lendas derivadas do Santo Graal e a respeito de Glaston­bury. Apoiada pelo visionário arqueólogo Frederick Bligh Bond, ela acreditava que o Santo Graal era uma força mística que fornecia poder e protegia a Britânia.

Ironicamente, após algo que, para nossos padrões, poderia ser compreendido como um colapso nervoso, e que ela tratou como um ataque místico, Fortune passou a treinar e praticar psicoterapia. Ela escreveu diversos livros, novelas e artigos para revistas de grande influência na época, como a Occult Review, combinando psicologia e misticismo, explorando o inconsciente coletivo, noções Jungianas de anima/animus, conceitos de Linhas de Ley, projeção astral psíquica, e métodos esotéricos de cura. Fortune desenvolveu um ocultismo profundamente embasado pela psicologia (ela usava o termo "Ciência Oculta"), uma espécie de sincretismo que se apropriava de elementos religiosos de várias culturas, incluindo a cosmologia egípcia, astrologia teosofista, numerologia, Cabala e técnicas orientais que permitiam acessar a "Biblioteca de Todas as Coisas", os Arquivos Akashic. Ela desenvolveu técnicas para canalizar sua mediunidade, induzir o transe, visualização de pentagramas e globos de proteção, auto-hipnose, meditação transcendental, uso de ferramentas para previsão do futuro através de taro, bolas de cristal e espelhos escuros, análise de sonhos e contato através de sonhos com "mestres secretos". Para muitos especialistas ela foi uma das maiores ocultistas de sua época.

Dion, esteve envolvida em todo tipo de tradição hermética e testou os limites do oculto em suas experiências colecionando desafetos. Acreditando que poderia haver utilizadores de magia capazes de atacá-la física e espiritualmente, ela redigiu seu mais famoso livro com o título Auto-Defesa Psíquica em 1930.


UM EXÉRCITO MÁGICO

Para Dion Fortune, o que importava era o estudo, sendo que qualquer resultado mágico seria produzido por elementos sobrenaturais superiores: "algo desse mundo, mas que não é desse mundo agindo através de nós". Ela acreditava que problemas sociais, políticos e até econômicos, seja de pessoas ou até nações, poderiam ser resolvidos através do uso de magia.

Ela considerava ocultismo como "uma nobre busca pela alma, uma verdadeira cruzada contra os Poderes das Trevas", a magia estava a serviço da humanidade, e de 1939 em diante ela acreditava que sua Ordem – A Fraternidade da Luz Interior (Fraternity of Inner Light) – estava destinada a defender o Reino, herdando o papel do legendário Rei Arthur e dos Cavaleiros do Graal. Com o início da Guerra, ela também passou a acreditar que a tarefa carecia de mais do que os membros iniciados de sua Ordem, diante de uma ameaça desse tamanho, seria necessário reforçar suas fileiras. Em uma surpreendente reviravolta, a Fraternidade começou a alistar novos membros, convidando pessoas de fora, fazendo deles membros honorários com o discurso "Todos temos de fazer a nossa parte". 

Com membros espalhados em todo Grã-Bretanha, a Ordem começou a agir como um verdadeiro Exército Místico operando na Defesa do Império. Fortune fez da sua propriedade em Queensborough Terrace, distrito de Bayswater em Londres, o Quartel General do grupo. Havia outros quartéis generais místicos em outras cidades, sendo que o de Glastonbury era um dos centros mais importantes. Ao longo de três anos (Outubro de 1939 a outubro de 1942), o Exército Místico se juntou, realizando Rituais Místicos, Meditação e Encantos de Proteção semelhantes aos usados pela Golden Dawn, com o objetivo de proteger prédios e lugares importantes que eram alvos chave do bombardeios nazistas.

Fortune acreditava em um Espírito Nacional que habitava Glastonbury, uma força personificada pelo fantasma do Rei Arthur que despertaria para ajudá-los. O grupo acrescentou elementos cristãos, rituais da Rosa-Cruz, tradições mágicas do Livro de Abra-Merlin, a lenda do Cálice Sagrado e o Arcanjo Miguel, todos unidos para proteger a Nação contra os Invasores Nazistas, considerados servos de forças obscuras e malignas. 


O INÍCIO DA BATALHA

Os novos membros alistados para ajudar na Batalha Mística receberam treinamento em meditação e como criar proteções místicas. 

"Os membros da Fraternidade da Luz Interior foram cuidadosamente treinados na teoria e na prática da meditação. Todo domingo de manhã entre 12:15 até 12:30 certos membros focavam em um transe para criar um Círculo de Proteção ao redor de seu Quartel General. Outros membros, se uniam nessa mesma meditação ao mesmo tempo. Os membros também eram convidados a visitar o Centro para participar dos rituais e aprender magias, sobretudo de proteção. Os mais capazes recebiam permissão de passar adiante o que haviam aprendido e iniciar novos membros fazendo o Exército Místico crescer.

Através de meditação, os membros da Fraternidade acreditavam poder desviar bombas, desarmar detonadores, causar problemas mecânicos em aviões, modificar o clima, criando tempestades e nevoeiros e influenciar os pilotos e artilheiros para que errassem os alvos pretendidos. Os membros acreditavam compartilhar de uma única alma. Quando os aviões da Lufftewaffe sobrevoavam Londres, eles se colocavam em círculo de mãos dadas e canalizavam sua energia para produzir efeitos mágicos. 

Além disso, a Fraternidade acreditava que a Batalha pela Britânia era essencial para frear o avanço das Forças das Trevas. Dion Fortune foi uma das primeiras pessoas a se referir a Alemanha Nazista como uma Força comprometida com o Mal. Ela havia estudado a simbologia secreta e estava ciente de vários rituais místicos empregados pelos Nazistas. Para Dion Fortune, a Guerra não era travada apenas nos céus, nas praias e nas cidades, o Campo Espiritual estava saturado de energia que os nazistas estavam empregando para suas vitórias arrasadoras até então. A Blitzkrieg, no seu entender, estava sendo alimentada com magia, o que explicava sua incrível eficiência. Nações caíam diante do avanço das tropas nazistas em dias e nada parecia ser capaz de fazer frente a ela. 

Nada, a não ser usar magia contra magia! 

Os membros usavam seus rituais para proteção, mas também agiam ofensivamente. Aqueles capazes de empreender viagens astrais, alegavam espionar bases inimigas e ouvir planos consultando bolas de cristal e espelhos. Usavam totens e símbolos de proteção para evitar que os nazistas usassem a mesma estratégia contra eles. Ocultistas tentavam afetar Generais inimigos através de magia direcionada. Consultavam a astrologia e numerologia para determinar as melhores datas para empreender bombardeios. Enviavam relatórios a respeito de onde deveriam ser posicionadas as baterias anti-aéreas, de preferência sobre Linhas de Ley - que conduziam magia e favoreciam a mira dos artilheiros. Símbolos de proteção mística foram pintados em instalações vitais com o intuito de desviar as bombas.

A medida que a confiança de Fortune crescia, ela começou a exigir mais de seus soldados mágicos. Em 28 de janeiro de 1940, Dion enviou um relatório ao Alto Comando de Defesa do Reino afirmando que a Fraternidade da Luz Interna pretendia realizar um Ritual para invocar presenças angelicais - Anjos vestindo mantos vermelhos, tendo espadas flamejantes em suas mãos, para defender a Grã-Bretanha contra o Mal. Se o Alto Comando de Defesa se manifestou a respeito do ritual não se sabe ao certo, mas em tempos desesperados, toda ajuda parece bem vinda.

Em 21 de abril do mesmo ano, outro Ritual estendendo o apoio dos Anjos foi realizado pela Fraternidade. A invocação visava defender a Costa da Inglaterra contra uma invasão que parecia iminente. Mapas e fotos da Costa sul da Inglaterra foram colocados sobre mesas e os membros da Ordem se dispuseram ao redor delas canalizando energias. O objetivo era ousado: criar uma muralha de nevoeiro que impedisse os navios nazistas de realizar o desembarque previsto em uma consulta astrológica. Bem sucedido ou não, é fato que a semana foi de enorme nevoeiro o que impedia a visualização do litoral. Nenhum desembarque aconteceu nesse dia ou em qualquer outro e a Fraternidade comemorou seu feito.

A seguir, Fortune começou a liderar ataques ritualísticos e batalhas no plano astral, com seus seguidores visualizando a si mesmos como armas mortais. A Fraternidade tentava descobrir planos secretos, determinar a localização de submarinos e de deslocamento de tropas se valendo de rituais que supostamente reverberavam no plano astral. Além disso, havia um grupo determinado a espalhar maldições e atormentar os nazistas mais graduados com todo tipo de malefício. Na luta contra o mal, qualquer arma à disposição poderia ser usada. Fortune e seus colegas mais próximos contavam que chegaram a lançar maldições semanalmente contra Hitler, Goebbels, Heinrich e Mussolini.

Quando Dion Fortune ganhou fama de feitiçaria e de empregar magia negra ela se saiu de forma bem humorada: "Se a magia que uso é branca ou negra, eu não sei. Mas após o fim da guerra, eu usarei água e sabão para remover qualquer mancha".

Mas embora estivesse na ofensiva, Fortune acreditava que os Nazistas também usavam forças mágicas similares, ainda que muito mais terríveis. Ela escreveu ao Comando Britânico em uma correspondência: "Não estou certa do quanto Hitler sabe a respeito do conhecimento técnico sobre o ocultismo e sua aplicação a assuntos militares, mas tenho certeza que ele está assessorado por especialistas", em outra correspondência datada de outubro de 1945, ela assumia que o Fuhrer deveria ter "algum conhecimento de ocultismo e certo grau de mediunidade desenvolvida e que isso havia permitido a ele sobreviver a atentados".

Existe consideráveis trabalhos a respeito do interesse dos nazistas em assuntos esotéricos, particularmente no que diz respeito aos Mitos do Graal e artefatos ancestrais. Fortune acreditava que os nazistas mantinham um Destacamento de Ocultistas como consultores e para a realização de rituais que aumentassem suas chances de vitória. Segundo ela, os nazistas buscavam artefatos antigos e magias nas nações que haviam conquistado. O uso desses artefatos contrabandeados da Europa ocupada, do Norte da África, do Oriente Médio e do Leste Europeu constituía um perigoso arsenal sobrenatural. Nas mãos de ocultistas alinhados com doutrinas malignas esses artefatos poderiam deflagrar efeitos aterrorizantes.

"Nós estamos lidando com forças ocultas perigosas. Eles (os nazistas) encontraram canais de expressão através do subconsciente de pessoas suscetíveis que não possuem princípios espirituais fortes. Nesse contexto, eles são tão, ou mais perigosos que a mais destrutiva das armas".


BATALHAS ASTRAIS, BOMBAS DE VERDADE

No auge da emblemática Batalha da Britânia, em meados de 1940, Fortune sentiu que o grupo já havia obtido algum sucesso sobre seus adversários. Ela sentiu, entretanto, que um momento dramático estava para acontecer e que um milagre precisava ocorrer para que a Inglaterra continuasse lutando. Esse momento, segundo Fortune, veio com a Evacuação de Dunkirk, quando tropas britânicas e francesas presas no litoral conseguiram uma milagrosa fuga através do Canal da Mancha. "Quando a tempestade estava mais bravia, tudo de que precisávamos era de uma certa calmaria, e mesmo as autoridades militares mais céticas falaram a respeito de um milagre". Até onde se sabe Fortune e seu grupo jamais afirmaram que a Evacuação de Dunkirk foi uma obra deles, mas disseram que aquele seria o momento da grande reviravolta na Guerra.

A despeito dos triunfos no campo místico, a guerra parecia cada vez mais próxima. Em um comunicado em setembro de 1940, Fortune escreveu que "toda nossa meditação esta semana foi voltada para os pilotos de caça da RAF em sua batalha mais importante". Durante os bombardeios sucessivos de Londres feitos pela força aérea alemã, boa parte da vizinhança de Bayswater foi destruída, mas o Quartel General da Fraternidade da Luz Interior se manteve intocado. "Durante todo o bombardeio e o som de explosões, nós permanecemos calmos e não experimentamos nada além de um absoluto sentimento de paz".

Essa confiança aumentou ainda mais quando a Blitz alemã acertou as duas casas vizinhas ao Quartel General da Fraternidade e esta ficou ilesa. "A casa ao lado ruiu com a explosão de bombas incendiárias e apesar dos estrondoso ruído próximo nós escapamos sem nenhum dano". Mesmo em meio a todo cenário de destruição Fortune escreveu em um diário: "Nós construímos uma proteção poderosa, quase tangível ao nosso redor. Essa é a segunda vez que um bombardeiro atinge nossa vizinhança, mas não houve vítimas. Não há como negar que existem forças poderosas agindo aqui".

Mas a despeito dos rituais e das proteções criadas, na semana seguinte, a propriedade foi atingida por um ataque aéreo maciço. "Sofremos alguns danos, mas eles não provocaram nenhuma vítima fatal. As invocações tiveram sucesso parcial, poderia ter sido muito pior". Ela se referia provavelmente a uma bomba que atravessou o telhado da biblioteca da Fraternidade, mas que não explodiu devido a uma falha no detonador. 


A NOVA ERA

A medida que a Batalha da Grã-Bretanha e a Blitz passou e a guerra gradualmente começou a pender para o lado dos Aliados, Dion começou a direcionar seus esforços para que o conflito terminasse o quanto antes. Como muitos, Fortune acreditava que após o fim da guerra deveria haver um período de reconstrução não apenas físico, mas social; a Era de Aquário estava se aproximando e muitas feridas precisavam ser cicatrizadas. A ocultista escreveu repetidas cartas pedindo a políticos e líderes do governo que não usassem os dias finais da guerra como pretexto para uma vingança. "A vitória não pode ser alcançada com a destruição completa do inimigo. Quando esta guerra terminar, a maneira como as coisas serão conduzidas serão determinantes para que conflitos desse tamanho não ocorram novamente".

Alguns seguidores mais próximos de Dion Fortune acreditam que os ataques psíquicos que ela sofreu durante a guerra, feitos pelos magos nazistas, a levaram para o túmulo mais cedo. Tendo ensinado seus métodos para os membros da Fraternidade por quase duas décadas, ela sucumbiu a leucemia pouco depois do término da guerra em 1946, alguns dias depois de completar 56 anos de idade. Ela foi enterrada em Glastonbury. 

A Fraternidade da Luz Interior continua existindo até os dias atuais.


LUTANDO O BOM COMBATE

Talvez Fortune e outros ocultistas britânicos tenham tido algum sucesso nesses dias escuros de temor e destruição. Poderia a energia psíquica focada pela Fraternidade ter ajudado a suportar a força acachapante da Blitz Nazista que despejou bombas sobre Londres 24 horas por dia, 7 dias por semana ao longo de meses?

Enquanto a intervenção sobrenatural de Dion Fortune pode não ter produzido nenhum benefício prático além do psicológico de aumentar a moral, seus efeitos não podem ser minimizados. Na história oral relatada pelos veteranos da Batalha da Britânia, é comum encontrar indivíduos atribuindo a milagres e ocorrências inexplicáveis sua própria sobrevivência. Muitos afirmam categoricamente que só saíram vivos desse conflito porque uma força superior parecia estar intercedendo por eles no momento de maior necessidade.

Apenas o olho do cético é capaz de separar a verdade da mentira e cada um tem sua própria interpretação a respeito da existência ou não do misticismo nos Campos de Batalha. Ainda assim, magia parece continuar a desempenhar um importante aspecto nas guerras contemporâneas. Nos anos 1980, o "Rei dos Bruxos Britânicos" Alex Sanders relatou ter feito uma série de rituais mágicos que visavam derrotar os inimigos argentinos na Guerra das Malvinas (Falklands). Sanders se gabava de ter encurtado o Conflito em pelo menos seis meses, graças a magias que permitiram um avanço seguro e sucessivas conquistas. Após o 11 de setembro, cerca de sete toneladas e meia de aço retirado das ruínas das Torres Gêmeas foram derretidos e usados para forjar o USS New York, que entrou em serviço em 2009. Isso carrega um imenso simbolismo, ainda mais quando sabemos dos rumores a respeito de que uma parte desse mesmo aço foi usado para forjar espadas usadas em rituais e cerimônias pelas forças armadas.

A Batalha da Grã-Bretanha com certeza foi vencida, pela imensa coragem, determinação e habilidade dos britânicos, da Commonwealth e dos pilotos aliados que lutaram nos céus enfumaçados daquele verão em 1940. Foi uma vitória imensa, com um significado profundo para o restante da Segunda Guerra Mundial e para o século XX. A monumental Operação Leão Marinho - a Invasão da Inglaterra, foi frustrada não apenas pelo sacrifício de homens e mulheres, mas pela capacidade de comprometimento de todo um povo - e porque não de magos, determinados a lutar até o último fôlego... E nunca se render!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Roda Viva | Laurentino Gomes | 25/11/2019




Escravidão Vol. 1 – Laurentino Gomes





Descrição do livro
Maior território escravista do hemisfério ocidental, o Brasil recebeu cerca de 5 milhões de cativos africanos, 40% do total de 12,5 milhões embarcados para a América ao longo de três séculos e meio. Como resultado, o país tem hoje a maior população negra do planeta, com exceção apenas da Nigéria. Foi também, entre os países do Novo Mundo, o que mais tempo resistiu a acabar com o tráfico de pessoas e o último a abolir o cativeiro, por meio da Lei Áurea de 1888 — quatro anos depois de Porto Rico e dois depois de Cuba.Nenhum outro assunto é tão importante e tão definidor da nossa identidade nacional quanto a escravidão. Conhecê-lo ajuda a explicar o que fomos no passado, o que somos hoje e também o que seremos daqui para a frente. Em um texto emocionante e rigorosamente documentado, Laurentino Gomes lança o primeiro volume de sua nova trilogia, resultado de 6 anos de pesquisas, que incluíram viagens por 12 países e 3 continentes.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Devemos ungir com óleo?


Introdução

Hoje em dia, muitos tem ungido com óleo buscando curar doentes e consagrar objetivos e pessoas ao Senhor. O objetivo deste artigo não é gerar confusão ou críticas, mas buscar agradar ao Espírito Santo obedecendo às verdades das Escrituras. Por favor, não use este texto em seu intelectualismo hipercrítico pecaminoso, mas em amor corrija seu irmão. Também, não é o alvo deste um detalhamento completo sobre o uso do óleo, principalmente no Antigo Testamento, mas questionarmos o uso dele no Novo com o que é feito atualmente.

Transcrevo abaixo parte do estudo do Pr. Eduardo Dantas[1] sobre o mesmo assunto, o qual nos dará uma boa base para prosseguirmos: matéria completa

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Imagem do dia


Restos do mosteiro românico de San Juan de DueroSóriaEspanha. O templo, que pertenceu à Ordem dos Cavaleiros Hospitalários, foi construído no século XII e esteve habitado até o século XVIII
(resolução original: 7 787 × 3 607)


terça-feira, 19 de novembro de 2019

ÉTICA JUDAICA

Fonte:

Judaísmo Humanista 


ÉTICA

Por: Prof. Jacob Lichts (Doutor, Professor Associado da Universidade de Tel Aviv) e Prof. André Neher (Doutor em Filosofia, Doutor em Medicina e Rabino, Professor de História e Fiolsofia na Universidade de Strasbourg e na Universidade de Tel Aviv)

NA BÍBLIA





Não existe um conceito abstrato e abrangente na Bíblia que encontre paralelo com o conceito moderno de “ética”. O termo musar que designa “ética” no Hebraico mais recente, na Bíblia indica meramente a função educacional desempenhada pelo pai (Prov. 1:8), com um significado próximo ao da “repreensão”. Na Bíblia, as exigências éticas são consideradas como sendo parte essencial das exigências de D’us aos homens. Esta conexão tão próxima dos campos ético e religioso (embora os dois não sejam completamente identificados) é uma das principais características da Bíblia, consequentemente a ética ocupa uma posição central em toda a Bíblia. Da mesma forma, a Bíblia teve uma influência decisiva sobre a formação da ética na cultura européia em geral direta ou indiretamente, através dos ensinamentos éticos na literatura apócrifa[1] e no Novo Testamento que se baseiam na ética bíblica.


Ética social.



O mandamento para evitar causar injustiça a um ser humano ou fazer mal ao fraco é fundamental à ética bíblica. A maior parte dos mandamentos éticos especificados na Bíblia pertencem a esta categoria: a devida justiça (Ex. 23:1-2; Deut. 16:18-20); evitar subornos (por exemplo, Ex. 23:8), roubos e opressão (Ex. 22:20; Deut.24:14); a defesa da viúva e do órfão; o comportamento demonstrando compaixão para com o escravo; e a proibição de bisbilhotar. Acrescidos a estes estavam as ordens para sustentar os pobres (Deut. 15:7-11), alimentar os famintos e vestir os nús. (Isaías 58:7; Ezequiel, 18:7).

A conclusão radical, porém lógica, que surgiu disto tudo é que o homem é obrigado a suprimir seus desejos e alimentar até mesmo seu inimigo (Prov. 25:21), devolver ao inimigo a propriedade que este perdeu e o ajudar a levantar seu asno que está prostrado sob a carga que carrega (Ex. 23:4-5). A ética bíblica, que adverte o homem a amar e a respeitar o próximo, atinge seu nível mais elevado no mandamento que começa com: “Você não deverá odiar teu irmão em seu coração, ou repreender o teu próximo”, e conclui com “amarás a teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Lev. 19:17-18). O principal objetivo deste mandamento, assim como de outros, é evitar o ódio infundado que destroi a vida da sociedade.

A tendência geral da ética social foi resumida pelos profetas que disseram: “Odeie o mal e ame o bem e estabeleça a justiça no portão” (Amós 5:15); e da mesma forma “Ele lhe disse, ó homem o que é bom; e o que o Senhor requer de você é que você faça justiça e ame a bondade e, que caminhe humildemente com seu D’us” (Miquéias 6:8). Estas passagens e outras semelhantes não apenas resumem os ensinamentos da ética, mas também colocam-na no centro da fé judaica. Um resumo dos ensinamentos da ética bíblica está contida no bem conhecido dito de Hilel: “Não faça aos outros o que não queres que te façam” (Shab. 31a)


A perfeição ética do indivíduo.


Ao contrário do sistema ético da filosofia grega, que procura definir as várias virtudes (quem é corajoso, generoso ou justo, etc.), a Bíblia exige que todo ser humano faça boas ações e se comporte de forma virtuosa com relação ao próximo, sem se preocupar com definições abstratas. Esta atitude é expressa de forma quase explícita em Jeremias 9:22-23: “Não deixa que o sábio se vanglorie de sua sabedoria, nem que o homem forte se glorifique de sua força, nem que o rico se vanglorie de sua riqueza. Porém, o que se vangloria que se glorie apenas de uma coisa: em me conhecer e me saber, pois eu sou o Senhor que exerce a bondade, a justiça e a equidade no mundo; pois nisto eu me regozijo – declara o Senhor”. Disso se entende que a essência da ética bíblica é o fazer o que é certo e justo.

O ideal da ética pessoal é o tzadik (o homem bom). O profeta Ezequiel define-o detalhadamente com o fim de explicar a doutrina da recompensa e da punição. Sua definição nada mais é do que a enumeração dos atos que o homem bom realiza e daqueles dos quais se abstêm (Ezequiel 18:5-9). A essência de todos estes atos é uma relação adequada entre o homem e seu próximo, com uma única exceção: o mandamento que exige banir a idolatria, que é exclusivamente um dever do homem para com D’us. Uma definição semelhante do homem bom aparece em Isaias 33:15 e no Salmo 15. Acrescido ao ideal do homem justo nos Salmos, há o homem temente a D’us que encontra alegria nos ensinamentos de D’us e no seu culto e que afasta a vida destituída de a honestidade ética (exemplo no Salmo No. 1). O ideal da ética pessoal recebeu expressão subseqüente no personagem de Abraão, a quem se creditou várias qualidades especialmente boas e nobres: ele foi complacente em sua relação com Lot [ou Ló], hospitaleiro e cheio de compaixão com respeito aos habitantes de Sodoma, humilde e generoso ao lidar com o povo de Heth [ou Hete] e, recusou-se a lucrar com a pilhagem da guerra com Amrafel [ou Anrafel].

Diferenciando a Característica de Ética Social na Bíblia.


O alto nível da ética bíblica que se evidencia no mandamento para amar o próximo, no caráter de Abraão e no primeiro Salmo, é peculiar à Bíblia e é difícil encontrar um paralelo em qualquer outra fonte. Entretanto, os mandamentos éticos gerais na Bíblia, os quais se baseiam no princípio de se evitar causar mal aos outros, são uma preocupação humana geral e constituem as bases da ética.

Algumas características chave da ética bíblica, tais como a devida justiça e os direitos da viúva e do órfão, eram prevalecentes no antigo Oriente Médio. Portanto, não se pode generalizar e dizer que que a Bíblia é única entre as obras religiosas no que diz respeito ao conteúdo de seus ensinamentos éticos. Entretanto, a Bíblia difere de qualquer outra obra religiosa ou ética quanto à importância que atribui à simples e fundamental exigência ética. As outras nações do antigo Oriente Médio revelavam seu senso ético nas composições que são marginais às suas culturas: em alguns provérbios dispersos na literatura, em prólogos a coletâneas de leis, nas várias leis específicas e nas confissões (ver abaixo). A conexão entre os ensinamentos éticos e as criações culturais principais – as imagens de deuses, o culto , o corpo principal da lei – é fraco. Por vezes, porém nem sempre, as aspirações éticas destas culturas são expressas em sua religião e organização social, ao passo em que a Bíblia põe a exigência ética no foco da religião e da cultura nacional. A exigência ética é de importância fundamental para os profetas, que declaram especificamente que esta é a essência de seus ensinamentos religiosos. Capítulos básicos da lei bíblica – os Dez Mandamentos, Levítico 19, as bênçãos e maldições do Monte Gerizim e Monte Ebal (Deuteronômio 27:15-26) – contém muitos mandamentos éticos importantes. A lei bíblica em si testemunha seu objetivo ético: “que grande nação tem leis e normas tão justas (tzadikim) como todo este Ensinamento...” (Deut. 4:8). Enquanto a sabedoria da literatura de Israel é semelhante àquela de culturas vizinhas, difere na grande ênfase que coloca sobre a educação ética (ver abaixo).

A suposição de que D’us é – ou deveria ser – justo e a questão da recompensa e punição que acompanha esta premissa são as bases das experiências religiosas encontradas nos Salmos, em Jó e algumas passagens proféticas.

A opinião de Hilel, o Velho, de que a exigência ética é a essência da Torá pode ser questionada, pois não pode ser dito que é o único pilar da fé bíblica. Entretanto, certamente há uma clara tendência na Bíblia de se colocar a exigência ética no foco da fé, mesmo se ela for compartilhada com outras preocupações tais como o monoteísmo.

Os ensinamentos éticos da Bíblia, embora claros e vigorosos, não são extraordinários em seu conteúdo, pois a Bíblia não requer nada mais do que comportamento adequado que é necessário para a existência da sociedade. A ética bíblica não exige, conforme exigem outros sistemas de ética (Cristianismo, Budismo e mesmo alguns sistemas no Judaísmo posterior), que o homem se afaste completamente, ou mesmo parcialmente, da vida diária para atingir a perfeição. O asceticismo, que encara a situação humana normal como a raiz do mal, é estranho à Bíblia e às culturas do Oriente Médio em geral. A Bíblia aprova a vida como ela é. Conseqüentemente ela faz suas exigências éticas compatíveis com a realidade social. Entretanto, o grau de justiça que pode ser alcançado dentro dos limites da realidade é exigido com um claro vigor que não permite concessões. Isto torna a Bíblia mais radical do que a maioria dos sistemas éticos. Os ensinamentos éticos da Bíblia, como a Bíblia em geral, são endereçados primeiro e antes de tudo para Israel, mas algumas passagens bíblicas estendem a exigência ética englobando toda a humanidade, tal como as leis de Noé (Gênesis 9:1-7), a história de Sodoma (Gênesis 19:20) ou a resposta de Amós contra os reinos vizinhos quanto a sua crueldade (Amós 1:3-2:3). O cenário do Livro de Jó, também está fora do contexto Israelita[2].

Ensinamentos éticos na Bíblia.


MEIOS DE INSTRUÇÃO.
A orientação acerca da ética bíblica é uniforme em seu conteúdo, mas é expressa de formas diferentes de acordo com o ponto de vista de cada livro específico da Bíblia. A expressão mais forte e mais radical do objetivo da ética bíblica é encontrado nas repreensões dos profetas, que castigam as pessoas implacavelmente pelas transgressões éticas e exigem a perfeição ética sem concessões (principalmente no âmbito da ética social). Mas suas repreensões não constituem realmente instrução, porque nem sempre ensinam como a pessoa deve se comportar em determinadas situações.

A lei Bíblica se preocupa em fornecer o ensinamento ético através de ações específicas. Os capítulos jurídicos da Torá proíbem explicita e detalhadamente várias transgressões, tais como o assassinato, o roubo e a chantagem e exigem explicitamente o sustento aos pobres, o amor ao próximo, etc.

O livro de Jó também enfatiza o mandamento que sujeita o indivíduo ao comportamento justo, porém por outro aspecto. Jó não se contenta em protestar não ter cometido as transgressões de roubo, opressão ou chantagem, mas afirma que na realidade, observou os mandamentos éticos positivos, sendo rigoroso consigo mesmo mais além do que a Lei exigia. Ele reivindica, por exemplo, que fez muito para apoiar aqueles que precisaram de sua ajuda: “Porque eu resgatei os pobres que choravam e os órfãos que não tinham quem os ajudasse. A benção dos desamparados veio sobre mim e eu alegrei o coração da viúva” (Jó 29:12-13). Jó 31 contém uma série de juramentos relativos à sua probidade começando com “’im”, “se”, que frequentemente é equivalente a “eu juro”: “(Eu juro) que não rejeitei a causa de meu servo....” (verso 13): “(Eu juro) que não fiz do ouro minha crença....” (verso 24).

Os ensinamentos éticos em todos os livros bíblicos estudados até agora são considerados como elementos essenciais das exigências de D’us para com os homens. A este respeito, a atitude de Provérbios é diferente. A maioria dos provérbios objetiva provar ao homem que vale a pena seguir o bom caminho, ao invés de seguir a simples sabedoria mundana. Por exemplo, os Provérbios não declaram que o adultério é proibido, mas apontam para os perigos do mesmo (6:24-35). Numa linha semelhante estão os seguintes versos: “Não difame o servo perante seu amo, a fim de que o mesmo não te amaldiçoe e fiques culpado”(Prov. 30:10) e “Se teu inimigo tiver fome, da-lhe pão para comer... pois assim amontoarás brasas em fogo sobre a sua cabeça e o Senhor recompensar-te-á” (25:21-22). Embora também haja referência a D’us aqui, o homem é colocado no centro da instrução ética. Esta abordagem é mais prática e mais funcional do que a abordagem da Bíblia em geral, devido à orientação educacional prática do Livro dos Provérbios. Porquanto os Provérbios pertencem à categoria geral da literatura das Sabedorias que prevalecia no antigo Oriente Médio, ainda assim ele difere de outras obras deste tipo no que tange à importância que dá à instrução ética: nos Provérbios a instrução ética assume uma importância fundamental, ao passo que na literatura das Sabedorias dos povos do antigo Oriente Médio ela assume uma importância secundária. Existem duas razões para tal fato: em primeiro lugar, os Provérbios objetivam a educação de jovens cidadãos, ao passo que as obras de Ahikar e a literatura didática egípcia dão mais ênfase no treinamento do oficial; em segundo lugar, a literatura das Sabedorias Israelita identificou o homem justo com o sábio por um lado e, por outro, o homem mau com o tolo (ex. Prov. 10:21,23).

Eclesiastes, naqueles capítulos que se desviam da literatura das Sabedorias estereotipada, põe sombras de dúvidas sobre o benefício da erudição em geral e sobre a instrução ética funcional contida nos Provérbios. Ele sabe que “não há um homem justo sobre a terra que não faça o que é melhor (isto é, que leve aos resultados mais desejáveis, 6:12)e que não erre” (7:20). Em seu desespero ele diz: “não exagere a bondade...”(7:16-18).

INSTRUÇÃO ÉTICA NA NARRATIVA BÍBLICA.


A narrativa é única forma literária bíblica que não está completamente permeada por orientação ética. Nas narrativas bíblicas, a instrução ética é apresentada indiretamente na forma de palavras de louvor para feitos nobres e mesmo este louvor, na maior parte das vezes, não é explícito. Feitos que são incluídos como sendo nobres incluem a fuga de José do adultério (Gen. 39:7-18), a misericórdia demonstrada por Davi [ou David] ao não matar Saul (Sam I 24; 26:3-25) e a história de Rispa [ou Rizpa], filha de Aiá (Sam II 21:10). Abraão é o único personagem bíblico que pode ser verdadeiramente descrito como um modelo ético. Os outros heróis na narrativa bíblica (Judá, José, Moisés, Calebe [ou Caleb] e Josué), embora abençoados com excelentes qualidades, não são descritos como modelos de perfeição ética. A Bíblia retrata claramente suas falhas (embora de forma implícita: a fraqueza de caráter de Isaque, a astúcia de Jacó, os pecados de Saul e de Davi) e não faz a menor tentativa de encobrir os defeitos de seus heróis. Entretanto, a regra na narrativa bíblica é que a punição apropriada segue às transgressões específicas. Jacó, que comprou o direito de progenitura por meio de fraude, é, por sua vez, enganado por Labão; Davi é punido por seu pecado com Bate-Seba e assim por diante.

Mesmo assim, estas características não são especialmente enfatizadas e assim não dão à narrativa bíblica uma orientação ética importante. Foi dito que a narrativa bíblica não assume uma clara postura moral, mas se regozija no sucesso de seus heróis, mesmo que os eles ajam de forma imoral (Jacó quando comprou o direito de progenitura; Raquel quando roubou os ídolos da casa; Jael quando matou Sísera). É verdade que a principal intenção da narrativa bíblica é tornar conhecida a grandeza de D’us, cujos atos são os únicos perfeitos. Assim, o narrador pode se dar ao luxo de ver os seres humanos como eles são. Ele não se força a moralizar demais seus heróis ou fazer deles homens-modelo, mas introduz o aspecto ético apenas quando o mesmo se adapta à história. Assim, na atitude do narrador para com seus heróis, observamos um tipo de conhecimento tolerante e informado acerca da natureza humana. É isto o que torna a maioria das histórias bíblicas fascinantes.

A LEI E A ÉTICA.


A Bíblia não faz uma distinção formal entre aqueles mandamentos que poderiam ser classificados como éticos daqueles que são relacionados com rituais (circuncisão, sacrifícios, a proibição de ingestão de sangue), ou daqueles que lidam com medidas jurídicas comuns. Portanto, os sábios são obrigados a diferenciar entre as categorias acima e verificar onde aparece o objetivo ético. Este pode ser diferenciado através do reconhecimento da diferença entre o mandamento básico geral “Não matarás” e as leis relativas ao castigo do assassino (ex. Num 35). Assim, os mandamentos éticos, no senso estrito, são leis sem sanções a serem obedecidas mas não impostas a força, por exemplo, os mandamentos sobre a respigadura, o feixe esquecido e a borda do campo (Lev. 19:9-10, em hebraico: Leket, Shichechá e Pe’á[3]): a proibição de fazer mal ao órfão e à viúva (ex. Ex. 22:21-23) ou a proibição ao atraso do pagamento dos salários (Lev. 19:13).

Além dos mandamentos claramente éticos, existe uma tendência geral na lei bíblica de se enfatizar a aspiração de justiça que é a base para toda lei. Na verdade, toda lei se baseia no ponto de vista ético do legislador e tenta, através do poder de regulamentos práticos, impor a ética aceita pela sociedade existente. A lei bíblica, entretanto, aspira de forma clara e consistente atingir este objetivo, como no exemplo “Justiça, justiça perseguirás” (como resumo dos regulamentos práticos relativos ao estabelecimento dos tribunais, Deut. 16:18-20). As leis da Bíblia são definidas explicitamente como “leis e estatutos justos” (Deut. 4:8). Da mesma forma, as razões éticas e sociais foram vinculadas a várias leis, tais como o mandamento para o Shabat: “Que teu escravo e tua escrava denscansem como tu. Lembra-te de que foste escravo...” (Deut. 5:14-15). Esta tendência é revelada nas leis cuja finalidade era defender o fraco e limitar o poder do opressor, tais como as leis regendo o escravo hebreu (Ex. 21:2; Deut. 15:12) ou a punição relativamente branda ao ladrão.

Ainda assim, é preciso lembrar que a lei se baseia não apenas no ponto de vista abstrato do legislador, mas também nas necessidades da sociedade de acordo com sua estrutura e costumes peculiares. Assim, uma avaliação da lei bíblica é incompleta se for considerado apenas o aspecto ético. Entretanto, a discussão do objetivo da lei não é essencial para a definição da ética bíblica.


NO PENSAMENTO JUDAICO POSTERIOR[4]


A religião judaica tem um caráter essencialmente ético. Desde suas origens bíblicas até o seu presente estágio de desenvolvimento, o elemento ético sempre foi central na religião judaica, tanto como princípio assim como objetivo. Entretanto, a íntima relação entre a religião e a ética foi interpretada de forma diferente em diferentes períodos do Judaísmo. Pelo menos duas tendências principais podem ser diferenciadas: a primeira identifica a ética judaica com a moderação (o meio-termo) e a segunda insiste nas exigências extremas de uma ética absoluta.

Na literatura talmúdica, as preocupações legislativas nunca são a última palavra. Não apenas a agadá[5] completa e modera a autonomia da halachá[6] por meio de lições morais e não apenas o tratado Avot é uma antologia de pensamento moral; mas, com maior obviedade, em cada conflito entre a rigidez jurídica da lei e os critérios da ética, o último supera o primeiro. O temor a D’us é superior à sabedoria. A ação sobrepuja as idéias. O homem é chamado a tomar uma posição não a favor da razão, mas a favor do bem. A ética aparece não na forma de princípios especulativos, mas em termos de experiência humana. Os sábios do Talmud são apresentados como exemplos morais e o ideal de santidade é identificado com uma vida escrupulosamente honesta e pura.

A literatura medieval e moderna testemunha uma tendência dupla de formular uma ética que seja tanto teórica como prática. Alguns filósofos judeus da Idade Média desenvolveram formulações sistemáticas de idéias éticas judaicas, como por exemplo Saadiah Gaon e Shlomo ibn Gabirol, cujo Tikun Midot há-Nefesh é inusitado por expor uma ética autônoma que não tem conexão com a doutrina religiosa. Shemona Perakim, obra clássica da ética judaica escrita por Maimonides, mostra semelhanças com a Ética de Aristóteles. Raramente encontramos um filósofo ou exegeta[7] judeu da Idade Média que não devote pelo menos parte de sua obra a demonstrar que o corpo do pensamento judaico e suas fontes bíblicas ou talmúdicas giravam ao redor da ética.

Esta tendência continua até a era moderna, quando filósofos judeus desde Moshe Mendelssohn colocam a ética no centro de sua descrição do universo. Por exemplo, Moritz Lazarus e Elias Benamozegh no século 19, deram a esta tendência uma expressão clássica: um compondo uma obra clássica denominada Die Ethik des Judentums (“A Ética do Judaísmo”) e o outro comparando a ética Judaica com a Cristã (Morale juive e morale chrétienne). Seria inadequado mencionar aqui Espinosa, pois enquanto seu Tractatus Theologico-Politicus mostra influências judaicas, o mesmo não se pode dizer com respeito à sua Ética.

Além da literatura mencionada, existe uma série de obras que são importantes para o desenvolvimento da ética judaica medieval e moderna, porque refletem uma experiência individual e coletiva. A Kabalá e outras correntes místicas contribuíram muito para a emergência destas obras. Exemplos deste tipo de literatura são : Hovot há-Levavot de Bahya ibn Paquda, o Sefer Hassidim de Hasidei Ashkenaz[8] e Mesillat Yesharim de M. H. Luzzatto. Estas obras se tornaram muito populares e foram adotadas por círculos judaicos opostos, tais como os Hassidim[9] e os Mitnagedim[10].

No século 19, sob a influência de R. Israel Lipkin (Salanter), o movimento Musar[11] reintroduziu a primazia da ética nas academias talmúdicas altamente intelectuais.

O meio-termo e o absoluto.
A íntima conexão entre a religião e a ética foi interpretada diferentemente em diferentes períodos da vida e do pensamento judaicos. Podem ser diferenciadas pelo menos duas tendências principais. Alinhada com o ideal estabelecido nos Provérbios e em vários Salmos, bem como nos escritos judaicos da era helenística e ensinamentos do período rabínico em Ertez Israel, a ética judaica empenha-se em ser moderada. Condena excessos, obviamente no sentido do mal, mas também no sentido do bem: condena igualmente a ganância e o desperdício, a devassidão e a abstinência, o prazer e o asceticismo, a irreverência e o fanatismo.

Maimônides desenvolveu esta identificação da ética judaica com o meio-termo (Shemonah Perakim; Yad, De’ot) ao longo do tempo, ele tende em direção a uma posição mais ascética. A maioria dos filósofos judeus modernos seguiu o ponto de vista geral de Maimônides e o tema da moderação na ética judaica. Consequentemente, eram opostos ao extremismo ético tal como o do cristianismo, e este ponto de vista se tornou um lugar comum na apologética[12] judaica.

Entretanto, a noção de moderação não é a única faceta da ética judaica. Os livros bíblicos de Jó e Eclesiastes criticam fortemente o meio-termo. Principalmente no livro de Jó, onde o meio-termo é recomendado por seus amigos, mas é finalmente rejeitado por D’us. O Talmud vai mais adiante ao declarar que a atitude de moderação é a atitude de Sodoma: “Aquele que diz, ‘O que é meu é meu e o que é teu é teu’ – este é o meio-termo e alguns dizem que este é o modo de Sodoma” (Avot 5:13). Portanto, não é surpreendente que o Talmud exalte os sábios bem conhecidos que, indo além da estrita letra da lei (lifenim mishurat hadin), deram toda sua fortuna aos pobres (R. Yeshevav), praticaram o celibato (Ben Azzai), gastaram muitas horas do dia e da noite em orações (R. Hanina b. Dosa) e, no geral, pareceram se conformar aos ideais monásticos dos Essênios[13]. O asceticismo é central nas obras de Bahya e Luzzatto, do Sefer há’Hassidim e, de certa forma, mesmo para o hassidismo do século 18. É verdade que neste movimento místico, cuja influência ainda se sente hoje em dia, o asceticismo foi transformado em alegria, mas a ética desta alegria era tão extrema e absoluta quando a ética ascética.

Portanto, seria incorreto associar a ética judaica com uma atitude uniforme e moderada. Esta atitude, que é frequentemente apresentada como um contraste à ética cristã, é na verdade apenas um aspecto da ética judaica. O outro aspecto, com suas exigências extremas e absolutas, é igualmente típico do pensamento judaico.


BIBLIOGRAFIA

NA BÍBLIA: F. Wagner, Geschichte des Sittlichkeitsbegriffs (1928-36); A. Weisner, Religion und Sittlichkeit der Genesis (1928); W.I. Baumgarten, Israelitische und altorientalische Weisheit (1933), 4-7, 24-30; F.R. Kraus, in: ZA, 43 (1936), 77-113; Kaufmann Y., Toledot, 1 (1937), 27 ff., 31 ff., 431-2; 2 (1945), 68-70, 557-628; J. Hempel, Das Ethos des Alten Testaments (1938); H.Duesberg, Les scribes inspirés, 1 (1938), 92-126, 481-500; H. Frankfort, Ancient Egyptian Religion (1948), 56-80; N.W. Porteous, in H.H. Rowley (ed.), Studies in Old Testament Prophecy (1950), 143-56; E. Neufeld, The Hittite Laws (1951), 53; A. Gelin, Morale et l’Ancient Testament (1952), 71-92; H. Kruse, in: Verbum Domini, 30 (1952), 3-13, 65-80, 143-53; H. Bonnet, Reallexikon der aegyptischen Religionsgeschichte (1952); W.G. Lambet, in: Ex Oriente Lux, 15 (1957-58), 184-96; idem, Babylonian Wisdom Literature (1960); S.E. Loewenstamm, in: Sefer S. Dim (1958), 124-5; idem, in BM, 13 (1962), 55-59; E. Jacob, in: VT Supplement, 7 (1960), 39-51.